quarta-feira, 7 de março de 2012

Introdução- Catequese junto à pessoa com deficiência

07/03/2012 Caros irmãos, paz e bem! Segue o texto base que será utilizado nas primeiras aulas.

Att.
Michele


Introdução

“Eles têm o direito de conhecer o “mistério da fé”. As dificuldades maiores que eles encontram tornam também mais meritórios os seus esforços e os dos seus educadores. ”

(Catechesi Tradendae,1971)

“É necessário levar em consideração as descobertas e avanços das ciências humanas e pedagógicas e assumir a pedagogia do próprio Cristo, que privilegiou os cegos, mudos, surdos, coxos, aleijados.”

“Toda pessoa tem necessidade, pois ninguém se basta a si mesmo. Mas, há algumas pessoas que têm necessidades específicas.”

(Diretório Nacional de Catequese.2005)

Neste contexto, o presente material tem como objetivo fornecer informações elementares para a inclusão na catequese de pessoas surdas.

Alguns pontos são comuns à inclusão e vale a pena começarmos por esta reflexão:

“É vã toda obra humana que não começa no céu” (Pietro Matastásio). Por isso, esteja em oração, para colher o chamado de Deus para este serviço. Sob a luz do Espírito Santo, prepare seus encontros catequéticos. Não há técnica, conhecimento e/ou material que substitua uma catequese ungida.

Estar em constante articulação com a família, escola e/ou profissionais que acompanhe o catequizando é de extrema importância. Desta forma você irá entender melhor seu catequizando, suas necessidades. Vai também obter informações e aprofundá-las.

A partir desta articulação poderá ser definido juntamente com o pároco se esta criança estará incluída todos os momentos em uma turma ou necessitará de trabalhos individuais. Se decidir-se pela primeira opção, o ideal é que a turma seja de poucas crianças e quando necessário tenha-se a ajuda de outro catequista.

Também é importante, estando a criança incluída num grupo, que seja dado abertura, sem a presença do catequizando especial, para que os demais catequizandos tirem suas dúvidas sobre, aprendam informações importantes, especialmente referente à dimensão espiritual da inclusão.Vale a pena também uma reunião com as famílias e até com a comunidade para explicar o processo de inclusão que está sendo iniciado.

Os milagres de Jesus

Evangelho de São Mateus:

Cura de uma pessoa com hanseníase: Mt 8,1-4

Cura de uma pessoa com paralisia: Mt 9,1-8

Cura de uma mulher com hemorragia: Mt 9,20-22

Cura de duas pessoas cegas: Mt 9,27-31

Cura de uma pessoa muda: Mt 9, 32-33

Evangelho de São Marcos:

Cura de uma pessoa com hanseníase: Mc 1,40-45

Cura de uma pessoa com paralisia: Mc 2,3-12

Cura de uma pessoa surda: Mc 7, 31-37

Cura de uma pessoa cega: Mc 8, 22-26

Evangelho de São Lucas:

Cura de uma pessoa com paralisia: Lc 5, 17-26

Evangelho de São João:

Cura de uma pessoa cega: Jo 9,1-41

SURDEZ

Terminologia

Historicamente a surdez era vista como uma patologia e mais recentemente, a partir de uma visão socioantropológica, ela é considerada uma condição singular marcada principalmente pela diferença lingüística – pessoas que fazem uso de uma língua de sinais.

De acordo com Gesser (2009) os termos deficiência auditiva e surdez não são determinados pelo grau de audição do sujeito, mas marcados por uma diversidade cultural.

Neste trabalho vamos utilizar a terminologia pessoa com surdez, entendo a pessoa não como deficiente, mas diferente. A diferença entre ouvintes e surdos é a forma de comunicação, isto é, a sua língua.

Não se utiliza mais a expressão surdo-mudo, visto que toda pessoa com surdez,desde que bem estimulada pode desenvolver a fala.

Surdos

Deficientes auditivos

São usuários de LIBRAS


Mobilização na defesa da LIBRAS, da cultura e da comunidade surda

Legenda na tv

Telefone para surdos

Conforto lingüístico visual

Participam de associações de surdos

Não aceitam ser chamados de deficientes auditivos

Presença de Intérprete de LIBRAS

Não são usuários de LIBRAS

Mobilização em busca de aparelhos auditivos

Televisão com fone sem fio ou legenda

São mais próximos dos ouvintes

Conforto lingüístico oral-auditivo

Não participam de associações de surdos

Não aceitam ser chamados de surdos


Presença de Intérprete Oro-Facial

Como funciona a orelha humana?

A orelha é dividida em três partes:

Orelha externa: pavilhão auricular e conduto auditivo externo;

Orelha média: tímpano e cadeia ossicular;

Orelha interna: canais semicirculares e cóclea;

FIGURA 1










Tipos e graus da perda auditiva (PA)

PA Condutiva

Ocorre na orelha externa e/ou média;

Caráter provisório, sendo possível curar-se a partir de tratamentos medicamentoso e/ ou cirúrgico.

PA Neurossensorial

Ocorre na orelha interna; envolvendo a cóclea e/ou nervo auditivo;

Normalmente não há cura, apenas acompanhamento clinico e/ou terapêutico.

PA Mista

Envolve ambos componentes, tanto de condução como neurossensorial.

A identificação da perda auditiva é feita por meio de exame audiológico, realizado pelo fonoaudiólogo, que diagnostica os graus de perda auditiva do indivíduo em graus, os quais acarretam respectivos prejuízos no desenvolvimento da fala/oralidade:

Normal

0 a 25 dB NA

Desenvolvimento normal de fala e linguagem

Leve

25 a 40 dB N.A

Linguagem e fala levemente prejudicadas

Moderada

41 a 70 dB N.A

Fala e linguagem atrasadas; omissão de consoantes

Severa

71 a 90 dB N.A

Raramente há desenvolvimento de fala (só com treino); linguagem severamente prejudicada

Profunda

acima de 90 dBN.A

Fala tende a ser pobre (mesmo com treino) e linguagem severamente prejudicada

A deficiência auditiva pode ser classificada quanto ao período em que ocorreu:

Pré-linguística

Pós-linguística

Pode ser congênita ou adquirida nos primeiros anos de vida antes do desenvolvimento da linguagem

É adquiria após o desenvolvimento da linguagem ou em idade mais avançada

Dificuldade de estruturação da linguagem

Facilidade na comunicação oral, pois há desenvolveu oralidade

Além do exame audiológico, faz-se necessário para o diagnóstico da perda auditiva, o exame otorrinolaringológico. Além disso, a detecção da perda auditiva é possível já em neonatos pelo Teste da Orelhinha, que tornou-se obrigatório pela Lei no 12.303 de 2 de agosto de 2010.

O diagnóstico precoce da perda auditiva em neonatos constitui-se em estratégia fundamental para prevenção, bem como permite uma intervenção/introdução de medidas terapêuticas, a fim de promover melhoria da qualidade de vida.

Causas da surdez:

As causas da surdez podem ser classificadas em dois tipos: a congênita e a adquirida.

Surdez Congênita

Surdez Adquirida

Hereditariedade

Predisposição genética como otosclerose

Viroses maternas como rubéola e sarampo

Meningite

Doenças da gestante como: sífilis, citomegalovírus, toxoplasmos

Exposição a sons impactantes como a explosão

Ingestão de remédios ototóxicos que lesam o nervo auditivo durante a gravidez

Sintomas da Surdez

Pede-se para repetir várias vezes ou isola-se socialmente;

2 - Dificuldade para ouvir em ambientes barulhentos;

3 - Zumbidos, chiados ou apitos no ouvido;

4 - Aumenta o volume da TV e rádio;

5 - Sensação de ouvido tampado, pressão e estalos no ouvido;

6 - Irritabilidade;

7 - Finge que entendeu o que foi conversado, tendo dificuldade em admitir a perda auditiva e procura ajuda;

8 - Evita situações comunicativas;

9 - Dificuldade de ouvir ao telefone.

Sintomas comuns apresentados por crianças com perda de audição:

1 - Não reagir a sons de forte intensidade como: batidas de portas, buzinas, etc.

2 - Não responder quando chamado;

5 - Criança que demora para falar (com um ano e seis meses a criança já fala algumas palavras isoladas).

O que fazer frente a algum destes sintomas?

1 - Consultar um médico otorrinolaringologista (especialista em ouvido, nariz e garganta);

2 - Consultar um fonoaudiólogo para realizar exames audiológicos e caso necessário realizar testes para adaptação aparelhos auditivos.

Tratamento

Para reduzir os prejuízos da deficiência auditiva é possível o uso de Próteses Auditivas associada à terapia fonoaudiológica. Um bom desempenho de fala depende do tipo, período e grau da perda; o estímulo recebido; os dispositivos eletrônicos utilizados e ainda de aspectos cognitivos, emocionais e socioculturais do indivíduo.

Além do fonoaudiólogo, outros profissionais podem atuar com pessoa com surdez: pedagogos, psicopedagogos, psicólogos, terapeutas ocupacionais, entre outros, especialmente na questão escolar, a qual trata-se de um processo diferenciado para as pessoas com surdez.

Como prevenir a surdez?

  • Mulheres: vacinação em dia antes de planejar a gravidez!
  • Durante a gravidez não ingerir nenhum medicamento por conta própria;
  • Evitar exposição a raio X;
  • Evitar exposição à ruídos nas primeiras semanas de vida criança;
  • Estar com a carteira de vacinação das crianças atualizadas;
  • Cuidado com o volume alto nos fones de ouvido (MP3, por exemplo);
  • Pessoas que trabalham em ambientes ruidosos necessitam de proteção adequada (fones de ouvido). Cada local de trabalho tem um ruído próprio e o médico do trabalho deve avaliar qual tipo de fone que é necessário;

Próteses auditivas

Existe uma variedade de tipos e marcas de próteses auditivas. Além dos aparelhos auditivos convencionais existe hoje o Implante Coclear (IC) e o sistema FM. O IC é um aparelho indicado para pessoas com surdez profunda bilateral e tem um componente externo e um interno. Este último é colocado por meio de uma cirurgia.

O sistema FM tem sido muito utilizado na escola, pois a voz do professor pode chegar diretamente no ouvido do aluno com surdez.

FIGURA 2

Cuidados

Durante os encontros de catequese são importantes alguns cuidados com as próteses auditivas:

¢ Retirar o aparelho em atividades que produzam suor;

¢ Evitar atividades que envolvam risco de atrito físico ou queda;

¢ Não permitir contato com água (brincadeiras ou chuva);

¢ Observar o término da bateria:

- o aparelho pode emitir algum sinal sonoro ou visual indicando que a bateria acabou e nem sempre a pessoa com surdez consegue identificar;

- a criança parece que está ouvindo menos;

¢ Microfonia: é um apito fino e constante que pode ser causado por:

  • Molde mal ajustado e já pequeno;
  • Posição da cabeça;
  • Problema interno do aparelho;

Língua de sinais

É a língua utilizada pelas comunidades surdas;

É uma língua visuo-gestual-espacial, pois falamos com as nossas mãos e a compreendemos pela nossa visão. Diferente da nossa língua portuguesa que é oral-auditiva.

Cada país tem sua língua de sinais. Aqui no Brasil temos a Língua Brasileira de sinais que é a 2ª língua oficial do nossos país. Ainda dentro de cada país podemos encontrar variações de acordo com as regiões: um sinal aqui no estado de São Paulo pode ser diferente no estado do Paraná, por exemplo.

É uma língua que não é baseada no português, pois tem estrutura gramatical própria. Cada sinal tem um significado, como uma palavra, que combinados podemos formar frases, conversar e expressar todo e qualquer tipo de informação, seja ela concreta ou abstrata.

Não é uma língua ágrafa, isto é, a língua de sinais tem sua versão escrita, apesar de ainda estar numa fase experimental:

FIGURA 3

Vamos aprender a falar o nosso nome em LIBRAS?

FIGURA 4

ESTRATÉGIAS PARA O CATEQUISTA

¢ Estar sempre em contato com a família, escola e profissionais que atendem o catequizando;

¢ Procurar conhecer mais sobre a surdez;

¢ Saber o tipo e o grau da perda auditiva do catequizando;

¢ Saber se ele escuta e o quanto escuta;

¢ Saber se o catequizando utiliza ou não alguma prótese auditiva e quais são os cuidados necessários;

¢ Qual é forma de comunicação que o catequizando utiliza: LIBRAS, leitura orofacial, fala ou uma combinação de formas;

¢ Procurar, se for o caso, aprender LIBRAS;

¢ Saber se ele tem domínio da língua escrita portuguesa;

¢ Saber se além da surdez o catequizando apresenta alguma outra necessidade especial;

¢ Utilizar em todos os encontros de recursos imagéticos, isto é:

  • Gravuras, desenhos, fotografias;
  • Esquemas;
  • Mapas conceituais;
  • Objetos concretos;
  • Encenação/teatro;
  • Filmes;

¢ Dispor as cadeiras em roda;

¢ Utilizar associação escrita-figura ou sinal;

¢ Na bíblia assinalar as palavras-chave;

Com os catequizados mais oralizados podemos contar com outras estratégias;

¢ Falar de frente, devagar e sem gritar;

¢ Garantir que seu rosto esteja sempre iluminado e no mesmo nível visual do catequizando;

¢ Usar frases pequenas e simples; palavras-chave;

¢ Usar repetições;

¢ Dizer o mesmo conteúdo de formas diferentes;

¢ Evitar que o catequizando sente perto de parede, porta e/ou janela;

¢ Usar expressões faciais;

¢ Se dirigir ao acompanhante somente quando a pessoa surda solicitar;

Referências Bibliográficas

www.surdo.org.br/Apostila.pdf

www.libras.ufsc.br

www.editora-arara-azul.com.br

www.sj.cefetsc.edu.br

www.ines.gov.br

www.acessobrasil.org.br

libraseducandosurdos.blospot.com

Google:

“Comunicando com as mãos- apostila de Judy Esminger”

“Apostila LIBRAS –NEPES”

aprendolibras.blogspot.com

http://www.youtube.com/user/efetacampinas

GESSER, A. LIBRAS? que língua é essa?: crenças e preconceitos em torno da língua de siansi e da realidade surda. São Paulo: Parábola Editorial, 2009

BRAGA, S.R.S.Conhecimentos essenciais para atender bem o paciente com prótese auditiva. São José dos Campos: Pulso, 2003.

BEVILACQUA, M.A.; FORMIGONI, G.M.P. Audiologia Educacional:uma opção terapêutica para a criança deficiente auditiva. 3ª edição. Carapicuiba: PróFono,200

SALES, A.M.; SANTOS, L.F; ALBRES, N.A.; JORDÃO, U.V. Construindo conhecimentos sobre surdez, Língua Brasileira de Sinais e Educação de Surdos. São Paulo: 2010. 42 p. (material didático).

Primeira Comunhão Eucarística – Catequese Especial para surdos. Livro do Catequista e catequizando. Editora Canção Nova – 2007


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Tese de mestrado de Ângela Maria Lucas Quintiliano - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP sobre ADOLESCENTES E MÍDIA


 

1. Harry Potter: uma história que .encanta.

Quem é o bruxo adolescente Harry Potter, que fez com que sua criadora, J.K. Rowling,

escrevesse sete livros contando sua saga? Qual o segredo do sucesso dos livros e,

principalmente, dos filmes sobre Harry Potter, que acumulam filas de crianças e

adolescentes que por horas esperam a abertura das livrarias para comprar o lançamento, ou

nos cinemas aguardando mais uma estréia cinematográfica? Que .poder mágico. existe

nesse personagem que fez até um cardeal da magnitude de Ratzinger se manifestar?

Iniciemos pela primeira questão: Quem é Harry Potter? É um bruxo adolescente, órfão, que

estuda em uma escola que o prepara para exercer suas habilidades em seu contexto

específico, .vida de bruxo.. Contudo, ele não é um bruxo qualquer, sua especialidade é

voltada para o Bem, e ele mesmo é um vitorioso em relação a isso, uma vez que escapou

da morte após um ataque praticado pelo representante do Mal, o personagem Lord

Voldemort, que matou seus pais, e cuja missão de Harry é vencê-lo, seja por vingança, ou

propriamente para eliminar o Mal do mundo.

Certamente que apenas o que foi apresentado do enredo principal da história de Harry

Potter não seria suficiente para que, de acordo com a editora Rocco que publica os livros da

série: .Os cinco primeiros volumes criados pela escritora venderam 250 milhões de

exemplares em todo o mundo, 2 milhões só no Brasil, e foram traduzidos para 62 idiomas2..

O número de pessoas, crianças, adolescentes e adultos que assistiram aos quatro filmes já

apresentados no Brasil, com certeza supera em muito os números relativos aos leitores,

uma vez que no cinema a história do jovem mago se torna acessível a um público que não

tem acesso aos livros, o que amplia consideravelmente a aproximação de todos para com

esse personagem.

Qual será a fórmula mágica utilizada por Rowling? Na realidade, como veremos a seguir, a

autora apenas se apropria de um universo que tem ressonância em um público jovem que

utiliza referenciais de sua época para elaborar suas representações simbólicas e, isto, a

partir de um conjunto de representações que longe estão de serem inovadoras.

De acordo com a reportagem publicada na revista mensal Aventuras na História, em sua

edição de novembro de 2005, sob o título Mago Novo, Magias Antigas, a autora teria partido

de uma vasta pesquisa histórica, que inclui conhecimento de mitos e outras representações

simbólicas que acompanham o imaginário de várias sociedades em vários tempos, e através

de uma, digamos assim, bricolage, ela teria transformado esses símbolos criando uma nova

realidade que contextualiza a história de Harry Potter.

Desta forma, os segredos da alquimia, astrologia e cabala que Harry aprende em Hogwart,

escola para bruxos, teria sido inspirada nas práticas difundidas na cidade de Toledo, na

Espanha, onde .se aprendiam as chamadas ciências ocultas e buscavam a pedra filosofal..

Esta aprendizagem, conforme nos diz a reportagem, teria tido como um dos seus mais

ilustres aprendizes o suíço Paracelso (fim do século XV e início do século XVI), conhecido

por nós como um dos fundadores da química e da medicina modernas. Em seu livro

Bruxaria e História: as Práticas Mágicas no Ocidente Cristão, o historiador Carlos Roberto

Figueiredo Nogueira demonstra a importância cultural e social dos magos nesse período,

que inclusive pertenciam à nobreza, e juntamente com as feiticeiras, que embora não

necessariamente pertencessem a essa categoria social, eram respeitadas por seus

conhecimentos do uso das ervas e, portanto, com a cura de doenças e coisas ligadas às

mais variadas superstições. Não há dúvidas de que tanto os magos como as feiticeiras eram

figuras que, em seu contexto, representavam o Bem.

O sentido do Mal com relação aos feitiços aprendidos por Harry, é dado com a introdução de

outro elemento da história: as bruxas, que diferentemente das feiticeiras tem suas origens

na Idade Moderna a partir da intensificação do processo que estrutura concretamente a

Santa Inquisição levado a frente pela Igreja Católica em um contexto de crise que ameaçava

sua hegemonia. As bruxas seriam assim associadas à figura do diabo - elemento que

também é introduzido com mais vigor no mesmo período - por isso, queimadas na fogueira

da Inquisição. Esta visão associada ao Mal teria no século XIX adquirido novos elementos

através das novas formas de esoterismo que surgem acompanhando uma das

transformações provocada pelo processo de secularização que há muito ameaçava a

hegemonia das religiões tradicionais.

No dizer do historiador Carlos Roberto Figueiredo Nogueira, embora a pesquisa histórica

tenha sido ampla, na verdade o resultado seria: .Harry é um jovem mago, mas usa a

vassoura das bruxas e aprende poções de feiticeiras.. Este é um exemplo daquilo que

denominamos acima de bricolage, onde os vários elementos se interligam e acabam por

produzir um novo resultado.

Além desses elementos apontados, outros ainda produzem o encantamento na construção

da aventura de Harry Potter. Lendas antigas, como a do alquimista Nicolau Flamel do século

XIV; palavras mágicas como .abracadabra., cuja origem segundo o escritor David Colbert

viria do aramaico abhadda kedhabra (.desapareça deste mundo.), usada para curar doenças que em Harry Potter se transforma no maior feitiço do Mal; o uso da mandrágora,planta que foi muito utilizada na Antiguidade por suas propriedades calmantes e

analgésicas, e na Idade Média, para fazer poções do amor; animais simbólicos como os

gatos, ratos, sapos e corujas além de outros de formas fantásticas (centauros, sereias e

dragões, por exemplo) aparecem nas histórias, assim como a transformação de humanos

em animais em condições especificas (animago, no universo criado pela autora), relembram

os mitos que se utilizam não só de animais, como também dessas transformações, como,

por exemplo, Proteu que na mitologia grega se transformava em vários animais.

Não são apenas os elementos mágicos e sobrenaturais que dão sabor as histórias criadas

por Rowling, mas há elementos retirados da psicanálise que podem nos remeter a conceitos

essenciais como os arquétipos de Jung. Neste caso, algumas comparações com heróis tais

como Ulisses, rei Arthur, e até mesmo Luke Skywalder, assim como os caminhos da

.jornada do herói. construídos por Joseph Campbell para descrever o modelo do arquétipo

do herói, são pontuados na reportagem que tenta demonstrar o amálgama entre o velho e o

novo.

Retornemos agora a indagação sobre o .poder mágico. das histórias de Harry Potter que

levaram até a uma manifestação da Igreja Católica na figura do então cardeal Ratzinger. A

manifestação a que nos referimos foi, como dissemos, uma forma de agradecer e

parabenizar a socióloga católica Gabriele Kuby, que em seu livro Harry Potter, o Bem ou o

Mal diz que .as histórias do jovem mago corrompem os corações dos jovens e ferem sua

relação com Deus desde a infância., conforme as palavras transcritas na reportagem em

questão. O cardeal teria lhe enviado uma carta com o seguinte teor: .Obrigado por seu livro

instrutivo. É bom que você esclareça sobre Harry Potter, já que suas sutis seduções têm um

profundo impacto na fé, sem que se perceba, e desagregam o cristianismo em seu

espírito.3. É importante acrescentar que a mensagem de apoio a análise de Kuby não se

restringiu a do cardeal Ratzinger, mas contou com manifestações na mesma linha de crítica

em revistas religiosas como Eclésia (evangélica) e Catolicismo (editada pela organização

Tradição Família e Propriedade).

O que tentaremos demonstrar é como a análise feita pelo então cardeal desvincula-se da

realidade contemporânea, principalmente quando essa realidade se coloca a partir de duas

categorias tão importantes para nosso contexto: a adolescência e a mídia. Também é

importante ressaltar que essa análise, desvinculada da realidade atual, está longe de ser

ingênua, mas se constitui em uma forma de manter hegemonia nas representações

simbólicas no campo religioso.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Moral Fundamental para Catequistas – D. Luiz G. Fechio

DIOCESE DE SÃO CARLOS - RP 1


 

ESCOLA DE CATEQUESE

São Carlos, 18 de maio de 2010.


 

MORAL FUNDAMENTAL


 

Pe. Ms. Luiz Gonzaga Féchio

Introdução    


 

    Quando usamos o termo "moral", geralmente o associamos com "ética". As duas palavras empregam-se na linguagem ordinária como substantivo e como adjetivo. A raiz semântica1 provém do termo grego ethos e de seu correspondente latino mos, que significam caráter, costume, e referem-se à conduta humana. O significado atual de ambos os conceitos parte desta base etimológica2, porém e mais preciso e mais técnico. Moral designa o conjunto de princípios, normas, obrigações, idéias morais de uma sociedade e de época determinada. Ética, por sua vez, indica a reflexão científica sobre o comportamento humano, o estudo sobre o bom e o mau na conduta humana; equivale à filosofia moral. Podemos, então, dizer que a moral refere-se à vida, à práxis, enquanto que a ética, ao saber, à reflexão, à ciência.

    Apesar dessas distinções, o parentesco é muito estreito e, às vezes, esses termos são usados indistintamente3.


 

1. A gênese da moral: a insuficiência do instinto na conduta humana


 

    No mundo irracional, os seres seguem cegamente as leis de sua natureza e de seus instintos e, através dessa obediência, alcançam o seu próprio destino e finalidade. À primeira vista, poderíamos até dizer que eles se encontram muito melhor programados que nós para a consecução de seus objetivos. Seu ordenamento é tão perfeito e adequado que, para agirem bem, só têm que se deixarem levar cegamente pelo dinamismo interno de suas próprias tendências, sem possibilidade de qualquer reparo. Os estímulos ambientais e as possíveis respostas derivadas de sua biologia estabelecem um equilíbrio dinâmico e perfeito. Aí radica a grandeza que tantas vezes admiramos


 


 


 

____________________

1 Semântica é a parte da linguística que estuda o significado das palavras.

2 A palavra etimologia, etymology em inglês, vem do grego étumos (real, verdadeiro) + logos (estudo, descrição, relato) e significa hoje o estudo científico da origem e da história de palavras. Conhecer a evolução do significado de uma palavra desde sua origem significa descobrir seu verdadeiro sentido e conhecê-la de forma mais completa.

3 Toda cultura e cada sociedade institui uma moral, isto é, valores concernentes ao bem e o mal, ao permitido e ao proibido, e à conduta correta, válidos para todos os seus membros. Culturas e sociedades fortemente hierarquizadas e com diferenças muito profundas de castas ou de classes podem até mesmo possuir várias morais, cada uma delas referida aos valores de uma casta ou de uma classe social. No entanto, a simples existência da moral não significa a presença explícita de uma ética, entendida como filosofia moral, isto é uma reflexão que discuta, problematize e interprete o significado dos valores morais. Toda a sociedade tende a naturalizar a moral, de maneira a assegurar sua perpetuação através dos tempos. De fato, os costumes são anteriores ao nosso conhecimento e formam o tecido da sociedade em que vivemos, de modo que acabam sendo considerados inquestionáveis e as sociedades tendem a naturalizá-los, isto é, torná-los como fatos naturais existentes por si mesmos. Não só isso. Para assegurar seu aspecto obrigatório que não pode ser transgredido, muitas sociedades tendem a sacralizá-los, ou seja, as religiões os concebem ordenados pelos deuses, na origem dos tempos. Como as próprias palavras indicam, ética e moral referem-se ao conjunto de costumes tradicionais de uma sociedade e que, como tais, são considerados valores e obrigações para a conduta de seus membros. A filosofia moral ou a disciplina denominada ética nasce quando se passa a indagar o que são, de onde vêm e o que valem os costumes.

nos complexos mecanismos do mineral, das plantas, e, sobretudo, dos animais. Mas, ao mesmo tempo, isso indica o nível infrarracional no qual se encontram, pois não existe neles nenhum espaço para a liberdade responsável.

    O ser humano, ao contrário, é um animal que nasce em um estado de maior fragilidade e indigência. Física e psicologicamente, ele se encontra sem defesas diante dos agentes externos, em uma atitude de dependência radical. Ele carece de uma base comum que o oriente para determinadas tarefas e o impulsione para um modo específico de ser ou comportar-se. Sua evolução e progresso devem ser alcançados através de um processo de aprendizagem. É por isso que ele foi definido como "o animal que segue normas".

    Desse modo, o comportamento ético, que exige que atuemos de acordo com certos costumes sociais aceitos pela comunidade, tem uma origem externa. A simples instintividade da criança não é suficiente para regular um comportamento humano. Desde o início da vida se impõe a urgência de uma ascese4, não tanto como um luxo religioso, mas sim como necessidade inevitável para impedir a anarquia do simples capricho. Nas primeiras etapas, essa função cabe aos pais. Trata-se de fazer com que a conduta não se molde em função das necessidades imediatas, aceitando-se a imprescindível renúncia que daí decorre para uma progressiva humanização. O aspecto mais característico da pedagogia humana reside precisamente na submissão a uma satisfação adiada, ou seja, retardada para além de seu chamado imediato. O animal pode satisfazer seus próprios impulsos em um ritmo instintivo, conduta que é ordenada pela teleologia5 especial de cada um. Mas tal regulação não é possível no ser humano.


 

2. A questão da liberdade na responsabilidade humana


 

    Parece-nos claro que o ser humano experimenta um chamado diante do qual tem que se sentir responsável. Nós somos convidados a um determinado comportamento pelos valores éticos, por um lado, e pelas exigências pessoais, por outro lado ─ tanto as que provêm da situação concreta como as que têm sua origem na vocação peculiar de Deus a cada um. A responsabilidade é justamente a capacidade que a pessoa tem de responder a tais convites. Onde não existe esse poder de resposta, também não é possível a moral. Se a pessoa reagisse e atuasse em função exclusiva de certos determinismos ou estivesse totalmente programado segundo esquemas de comportamento alheios à sua vontade, nos encontraríamos diante de um ser irracional ou diante de um robô humano, que nada teria a ver com a natureza de uma pessoa. O que a pessoa tem de mais peculiar e característico é precisamente o fator da liberdade. Esse tema sempre constituiu motivo de estudo e reflexão ao longo da história.

    A moral também não podia deixar de lado tal problema, de modo que todos os textos reservavam um lugar ao seu estudo, constituindo o tratado clássico do ato humano. A análise psicológica e ética do ato humano representavam os dois pontos fundamentais desse estudo: que condições são necessárias para considerá-lo voluntário e como se especifica a sua moralidade. A lei e a consciência não teriam sentido no momento em que o ser humano perdesse ou anulasse sua capacidade de decisão. A vida moral não se fundamenta no "ter que" da coação e da submissão à força, mas no "dever", que nasce e é aceito na livre autodeterminação do próprio destino.

    Sem liberdade, haveria realidades que se imporiam, mas nunca valores éticos que obrigariam, porque a natureza mesma da obrigação moral revela a necessidade urgente de ser livre.

    A doutrina da liberdade encontrou o seu mais perigoso adversário em qualquer dos muitos tipos de determinismo surgidos na história.

    O ser humano é um ser múltipla e profundamente condicionado. São muitos os dados, as experiências, as influências do meio, os interesses, os modelos culturais, as formas de temperamento, as necessidades psicológicas, os impulsos desconhecidos e outros fatores que impedem um absoluto equilíbrio e neutralidade, de modo a não conceder certa vantagem a alguma


 

____________________

4 Conjunto de exercícios (oração, meditação etc.) que visam ao aperfeiçoamento espiritual.

5 Em Filosofia, é a ciência das causas finais, que se baseia na ideia de finalidade; ciência que admite a existência de uma causa primordial pré-estabelecida de todos os fenômenos, e a tendência deles para um fim necessário.

das opções. Tudo o que é trazido por qualquer tipo de determinismo poderia ser aceito sem nenhum temor ou receio. É verdade que estamos comprometidos com uma realidade "imposta", situados em um contexto do qual não podemos fugir completamente, "dirigidos" por uma série de leis que mantêm sua eficácia e causalidade. E tudo isso em um grau bastante superior ao suspeitado pelo indivíduo normal e comum. Trata-se de fatos experienciais, cientificamente demonstrados. Mas deles também não se pode deduzir logicamente uma simples ética de necessidade, sem outros horizontes além da submissão forçada aos mecanismos cegos.

    A existência possui um acentuado caráter dialético entre aquilo que nos foi dado à margem de nossa vontade e o projeto ou meta em direção ao qual dirigimos nossos passos. A liberdade não é um presente gratuito da natureza, mas sim uma conquista que só se alcança através de um grande combate. Ela seria muito mais a capacidade de a pessoa ir superando e se desligando, pouco a pouco, na medida das suas possibilidades, daqueles compromissos e determinismos que não quer aceitar nem considera válidos em função de seu destino.

    Trata-se de um confronto violento e paradoxal entre os componentes deterministas e a ânsia de autonomia, que se entrecruzam constantemente em nossa estrutura psicobiológica. É nisso que se baseia o paradoxo radical da liberdade humana. Nós possuímos uma liberdade ─ em parte determinada ─ e um determinismo ─ que, em parte, também é responsável ─, embora a proporção de ambos os elementos seja variável e diferenciada conforme as pessoas concretas ou em função das circunstâncias. Seria preciso estudar em cada caso que zonas se fazem impenetráveis à liberdade e por que, mas esses limites e reduções não exigem sua completa eliminação.

    Da mesma forma como não há nenhum argumento definitivo que negue sua existência, também não há nenhum raciocínio filosófico que a imponha com absoluta clareza e de forma convincente, sem a menor dúvida ou vacilação. Assim, apesar das dificuldades, devemos nos inclinar por aquilo que parece mais racional. A insistência permanente nessa peculiaridade específica do ser humano, com as análises e avaliações de todo tipo que já se utilizaram, é o sinal de uma crença comum, defendida como um precioso patrimônio da humanidade quando se descobre o perigo de perdê-la. Justamente hoje, quando se apregoam tanto os direitos da liberdade em todos os campos, parece paradoxal combater a sua possibilidade. Se não fosse livre, o ser humano ficaria despossuído de toda a sua dignidade pessoal; então, o mundo dos direitos e das obrigações, coerentemente, teria que desaparecer da terra. Assim, é preciso defender pelo menos a dose de liberdade que cada pessoa pode alcançar.


 

3. Função da moral fundamental


 

    As perguntas capitais de toda ética são duas: que havemos de fazer? E por que temos de agir assim? Se em outros tempos o importante foi responder a primeira pergunta, hoje a ênfase cai sobre a segunda. Não se trata simplesmente de conhecer os conteúdos (normas, prescrições, obrigações), e sim de legitimar e fundar racionalmente a validade dos juízos morais. Este é o eixo de todo debate ético. O que preocupa é saber não só como temos de agir, mas também por que o temos de fazer de determinada maneira. Não basta, pois, propor e repetir as normas de sempre, nem é suficiente fazê-lo com respaldo da autoridade. É necessário justificá-las de modo racional e convincente. É necessário, portanto, fundamentar os valores e as normas morais. A isso tende principalmente a moral fundamental: justificar criticamente o agir moral.

    A tarefa de fundamentar a moral não é irrelevante. Buscar a razão de si mesma parece uma exigência inevitável. Trata-se, porém, de uma empresa árdua e complexa. A teologia moral deve fundamentar seu sentido enquanto ética e enquanto teologia. Isto quer dizer: ela tem que legitimar o agir humano à luz da razão e à luz da fé, a partir da razão humana e a partir da revelação divina. À dificuldade que comporta a fundamentação racional, acrescenta-se a harmonização entre a razão e a fé.

    Por um lado, a moral deve assumir a atividade da razão humana, a criatividade da pessoa, o dinamismo de sua responsabilidade. Por outro lado, deverá integrar a argumentação racional no saber teológico; há de reconhecer a primazia de Deus, a sabedoria da lei divina, e há de guiar o ser humano à busca de Sua vontade, à escuta de Sua Palavra e a responder, como pessoa livre e responsável, ao Seu chamado.

    A moral é uma exigência da natureza humana e é, ao mesmo tempo, um compromisso que nasce da fé.

    A tradição teológica católica defendeu que razão e fé não se excluem nem são duas realidades antagônicas. Ao contrário, sem perder seu valor, harmonizam-se e integram-se; "são como as duas asas com as quais o espírito humano se eleva à contemplação da verdade", afirmou

João Paulo II, no começo de sua encíclica Fides et Ratio, dedicada integralmente ao tema6. E continua: "Deus pôs no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de conhecer a Ele para que, conhecendo-O e amando-O, possa alcançar a plena verdade sobre si mesmo"7. Se Deus é a resposta às últimas perguntas, se "reconhecer o Senhor como Deus é o núcleo central e o coração da Lei"8, Deus não responde ordinariamente às perguntas primeiras e imediatas. Para isso é necessária a mediação da razão. Para saber como orientar o comportamento humano, para configurar a ordem ética na vida concreta, a fé não é suficiente; faz-se necessário recorrer à ética racional, elaborada pelo esforço do ser humano, criado por Deus e ordenado a Ele. Como de maneira precisa expressa também João Paulo II: "Somente Deus pode responder à pergunta a respeito do bem porque Ele é o Bem. Deus, porém, já respondeu a essa pergunta: fê-lo criando o homem e ordenando-o ao seu fim com sabedoria e amor, mediante a lei inscrita em seu coração (cf. Rm 2,15), a lei natural"9. Vale dizer, Deus difunde no ser humano a luz da inteligência e, graças a ela, o homem pode chegar a conhecer o que deve fazer e o que deve evitar. Afirmou também João Paulo II: "Não menos importante do que a pesquisa no âmbito teórico é a que se leva a cabo no âmbito prático: quero aludir à busca da verdade em relação com o bem que é necessário realizar. Com efeito, com o próprio agir ético a pessoa, agindo segundo seu livre e reto querer, toma o caminho da felicidade e tende à perfeição"10.


 

4. A lei moral natural11


 

    O homem participa da sabedoria e da bondade do Criador, que lhe confere o domínio de seus atos e a capacidade de se governar em vista da verdade e do bem. A lei natural exprime o sentido moral original, que permite ao homem discernir, pela razão, o que é o bem e o mal, a verdade e a mentira.


 

    A lei natural se acha escrita e gravada na alma de todos e de cada um dos homens, porque ela é a razão humana ordenando fazer o bem e proibindo pecar. (...) Mas esta prescrição da razão não poderia ter força de lei se não fosse a voz e o intérprete de uma razão mais alta, à qual nosso espírito e nossa liberdade devem submeter-se12.


 

    A lei "divina e natural"13 mostra ao homem o caminho a seguir para praticar o bem e atingir seu fim. A lei natural enuncia os preceitos primeiros e essenciais que regem a vida moral. Tem como esteio a aspiração e a submissão a Deus, fonte e juiz de todo bem, assim como sentir o outro como igual a si mesmo. Está exposta, em seus principais preceitos, no Decálogo. Essa lei é


 


 


 


 


 


 

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6 Palavras iniciais da encíclica Fides et Ratio (FR ─ "Fé e Razão"), publicada em 14 de setembro de 1998.

7 Idem.

8 Encíclica Veritatis Splendor (VS ─ "O Esplendor da Verdade"), do papa João Paulo II, sobre algumas questões fundamentais do ensinamento moral da Igreja publicada em 6 de agosto de 1993.

9 VS (Veritatis Splendor) 12.

10 FR (Fides et Ratio) 25.

11 O texto é, integralmente, do Catecismo da Igreja Católica (CIC), dos números 1954 ao 1960.

12 Encíclica do papa Leão XIII (1878-1903) Libertas praestantissimum, sobre a liberdade humana, publicada em 20 de junho de 1888.

13 Constituição Pastoral Gaudium et Spes (GS ─ "As alegrias e as esperanças", sobre a Igreja no mundo de hoje) do Concílio Vaticano II, publicada em 7 de dezembro de 1965.

denominada natural não em referência à natureza dos seres irracionais, mas porque a razão que a promulga pertence, como algo próprio, à natureza humana:


 

    Onde é, então, que se acham inscritas estas regras, senão no livro desta luz que se chama a verdade? Aí está escrita toda a lei justa, dali ela passa para o coração do homem que cumpre a justiça, não que emigre para ele, mas sim deixando aí a sua marca, à maneira de um sinete (carimbo, chancela, selo) que de um anel passa para a cera, mas sem deixar o anel14.

    A lei natural outra coisa não é senão a luz da inteligência posta em nós por Deus. Por ela, conhecemos o que se deve fazer e o que se deve evitar. Esta luz ou esta lei, deu-a Deus à criação15.


 

    Presente no coração de cada homem e estabelecida pela razão, a lei natural é universal em seus preceitos, e sua autoridade se estende a todos os homens. Ela exprime a dignidade da pessoa e determina a base de seus direitos e de seus deveres fundamentais:


 

    Existe, sem dúvida, uma verdadeira lei: é a reta razão. Conforme à natureza, difundida em todos os homens, ela é imutável e eterna; suas ordens chamam ao dever, suas proibições afastam do pecado. (...) É um sacrilégio substituí-la por uma lei contrária; é proibido não aplicar uma de suas disposições; quanto a ab-rogá-la (anulá-la)
inteiramente, ninguém tem a possibilidade de fazê-lo16.


 

    A aplicação da lei natural varia muito. Pode exigir uma reflexão adaptada à multiplicidade das condições de vida, conforme os lugares, as épocas e as circunstâncias. Todavia, na diversidade das culturas, a lei natural permanece como uma regra que liga entre si os homens e lhes impõe, papa além das inevitáveis diferenças, princípios comuns.

    A lei natural é imutável17 e permanente através das variações da história; ela subsiste sob o fluxo das idéias e dos costumes e constitui a base para seu progresso. As regras que a exprimem permanecem substancialmente válidas. Mesmo que alguém negue até os seus princípios, não é possível destruí-la nem arrancá-la do coração do homem. Sempre torna a ressurgir na vida dos indivíduos e das sociedades:


 

    O roubo é certamente punido por vossa lei, Senhor, e pela lei escrita no coração do homem, (lei) que nem mesmo a iniqüidade consegue apagar18.


 

    Obra excelente do Criador, a lei natural fornece os fundamentos sólidos sobre os quais pode o homem construir o edifício das regras morais que orientarão suas opções. Ela assenta igualmente a base moral indispensável para a construção da comunidade dos homens. Proporciona, enfim, a base necessária à lei civil que se relaciona com ela, seja por uma reflexão que tira as conclusões de seus princípios, seja por adições de natureza positiva e jurídica.

    Os preceitos da lei natural não são percebidos por todos de maneira clara e imediata. Na atual situação, a graça e a revelação nos são necessárias, como pecadores que somos, para que as verdades religiosas e morais possam ser conhecidas "por todos e sem dificuldade, com firme certeza e sem mistura de erro"19. A lei natural propicia à lei revelada e à graça um fundamento preparado por Deus e em concordância com a obra do Espírito.


 

5. A vida em Cristo


 

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14 Santo Agostinho (354─430); obra: "Da Trindade" (400─416).

15 Santo Tomás de Aquino (1225─1274).

16 Marco Túlio Cícero, em latim Marcus Tullius Cicero (106 a.C. — 43 a.C.): filósofo, orador, escritor, advogado e político romano.

17 GS 10

18 Santo Agostinho (354─430), na obra "Confissões" (Confesiones).

19 Constituição dogmática Dei Filius (DF ─ "O Filho de Deus", sobre a fé católica), do Concílio Vaticano I (1869-1870).

    Este é o título que, significativamente, outorga o Catecismo da Igreja Católica à sua terceira parte, na qual propõe os conteúdos morais. Seguindo a Cristo e em união com ele, os cristãos são convidados a viver sob o olhar do Pai, e ser perfeitos como o Pai celeste, a ser imitadores de Deus e a viver no amor, a seguir os exemplos de Cristo Jesus, a conformar pensamentos, palavras e ações com "os mesmos sentimentos que teve Cristo" (Fl 2,5), a participar em sua vida de ressuscitado.


 

    "Jesus Cristo sempre fez o que era do agrado do Pai20. Sempre viveu em perfeita comunhão com Ele. Também os discípulos são convidados a viver sob o olhar do Pai, 'que vê o que está oculto' (Mt 6,6), para se tornarem 'perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito' (Mt 5,48).

    Incorporados a Cristo pelo Batismo21, os cristãos estão 'mortos para o pecado e vivos para Deus em Cristo Jesus'22, participando assim da vida do Ressuscitado23. Seguindo a Cristo e em união com ele24, podem procurar 'tornar-se imitadores de Deus como filhos amados e andar no amor'25, conformando seus pensamentos, palavras e ações aos 'sentimentos de Cristo Jesus'26 e seguindo seus exemplos"27.28


 

    Quando refletimos sobre a identidade da moral cristã, necessariamente temos que voltar-nos para Cristo, que constitui seu centro e sua referência fundamental. É ele que revela a vontade do Pai, a condição e a vocação integral do homem, e quem ensina a verdade a respeito do agir moral. Ele, que no dom de si mesmo é o cumprimento vivo e a plenitude da Lei, faz-se lei viva e pessoal que convida ao seguimento e que, mediante o Espírito, dá a graça para poder compartilhar sua vida e seu amor.

    Realmente, "seguir a Cristo é o fundamento essencial e original da moral cristã"29. E isso significa não só escutar seu ensinamento e cumprir seus mandamentos, mas "aderir à própria pessoa de Cristo, compartilhar sua vida e seu destino, participar de sua obediência livre e amorosa à vontade do Pai"30. A adesão a Jesus é a opção por ele, implica ser e viver para ele uma decisão de conversão total e profunda, ruptura com tudo o que não é ele. Significa tal vinculação à sua pessoa que suas palavras, ações e preceitos constituem a regra moral da vida cristã.

    Cristo revela o ser e o agir humano. À luz de Cristo, esclarece-se o mistério da pessoa e dele o humano obtém resposta a respeito da orientação de sua vida. Quem quiser compreender até o fundo a si mesmo tem que aproximar-se de Jesus Cristo31; e quem quiser encontrar a resposta acerca do que é bom e do que é mau, é necessário que se dirija a ele. Cristo, Novo Adão, "manifesta plenamente o homem ao próprio homem e descobre-lhe a grandeza de sua vocação"32. Mostrar "a excelência da vocação dos fiéis em Cristo e sua obrigação de produzir frutos na caridade para a vida do mundo"33 é o encargo da teologia moral.

    Assim, pois, a teologia moral, que tem por objeto o ser humano e seu agir livre e responsável, parte de Cristo, que o convida a participar em sua vida e o chama a segui-lo; e a vida cristã é vocação ao seguimento, diálogo de amor, participação e comunhão na vida de Jesus.


 


 


 

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20 Cf. Jo 8,29.

21 Cf. Rm 6,5.

22 Cf. Rm 6,11.

23 Cf. Cl 2,12.

24 Cf. Jo 15,5.

25 Cf. Ef 5,1-2.

26 Cf Fl 2,5.

27 Cf. Jo 13,12-16.

28 Os dois parágrafos correspondem aos números 1693 e 1694 do CIC.

29 VS 19.

30 Idem.

31 Encíclica Redemptor Hominis (RH ─ "O Redentor do homem"), de João Paulo II, publicada em 4 de março de 1979. No nº. 10. o papa afirma: "O homem que quiser compreender-se a si mesmo profundamente ─ não apenas segundo imediatos, parciais, não raro superficiais e até mesmo só aparentes critérios e medidas do próprio ser ─ deve, com a sua inquietude, incerteza e também fraqueza e pecaminosidade, com a sua vida e com a sua morte, aproximar-se de Cristo".

32 GS 22.

33 Decreto Optatam Totius, 16 (OT ─ "A desejada renovação", sobre a formação sacerdotal) do Concílio Vaticano II, publicado em 28 de outubro de 1965.

    6. À luz do Evangelho e da experiência humana


 

    O estatuto epistemológico34 através do qual alcança sua missão a teologia moral, ou seja, o conhecimento científico que dá fundamentação a ela, está condensado no Concílio Vaticano II, na expressão "à luz do Evangelho e da experiência humana"35. Deste modo, alude à revelação bíblica, transmitida na Igreja pelo Espírito Santo, e ao conhecimento racional. "Na base de toda a reflexão que a Igreja realiza está a consciência de ser depositária de uma mensagem que tem sua origem no próprio Deus"36, porém, há, também, "um caminho que o homem, se quiser, pode percorrer: inicia-se com a capacidade da razão de elevar-se mais além de todo contingente para ir até o infinito"37.

    A ética é cristã à medida que se refere a Cristo, Palavra definitiva de Deus ao mundo. A fundamentação bíblica é, pois, essencial. A Sagrada Escritura é a alma da teologia e o Evangelho, "fonte de toda verdade salvífica e de toda norma de conduta"38. Por isso, a exposição científica da teologia moral deve nutrir-se da doutrina da Sagrada Escritura39.

    Assim, pois, a reflexão teológica deve estar sob o juízo da Palavra de Deus, superando uma teologia moral ancorada em proposições e categorias filosóficas e jurídicas. Este reconhecimento leva à afirmação de que na Sagrada Escritura encontram-se formuladas as principais verdades da moral cristã. Ainda que não seja um conteúdo sistemático de moral, contém princípios, valores e normas que devem regular a vida dos cristãos, e, principalmente, contém a verdade a respeito do ser humano e seu destino. A partir dessa verdade, a pessoa é chamada a construir a própria personalidade.

    Em relação às normas morais, a Sagrada Escritura traz, antes de tudo, as normas fundamentais ou transcendentes, isto é, as normas que expressam a intencionalidade profunda da existência moral e que guiam a autorrealização do humano em sua totalidade perante o chamado de Deus. Oferece, porém, também outras normas mais concretas e particulares, às quais alguns teólogos dão o nome de normas categoriais. Sua existência é evidente nos livros sagrados: são numerosas, concretas e pormenorizadas. Por um lado, existe conexão entre as orientações fundamentais e estas normas particulares. Por outro, precisamente enquanto particulares, é possível perceber na Escritura certa evolução e mudança. Pode-se, então, constatar seu caráter histórico e provisório, condicionado pelo ambiente sociocultural.

    Isso tudo propõe um problema árduo: nem sempre é fácil discernir o que é palavra permanente de Deus e o que é condicionalmente cultural. E este é o grande desafio da teologia moral que, em seu labor científico, conta, além disso, com o Magistério40. Com efeito, a Palavra de Deus, afirmada no texto sagrado (Bíblia) e vivida na comunidade cristã ao longo dos séculos (tradição41) é proposta com autoridade aos crentes pelo Magistério. Como ensina o Concílio


 


 


 


 

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34 Epistemologia ou teoria do conhecimento (do grego ἐπιστήμη [episteme], ciência, conhecimento; λόγος logos], discurso) é um ramo da Filosofia que trata dos problemas filosóficos relacionados à crença e ao conhecimento. A epistemologia estuda a origem, a estrutura, os métodos e a validade do conhecimento (daí também se designar por filosofia do conhecimento).

35 GS 46.

36 FR 7.

37 FR 24.

38 Constituição dogmática Dei Verbum 7(DV ─ "A Palavra de Deus", sobre a Revelação divina) do Concílio Vaticano II, publicada no dia 18 de novembro de 1965.

39 Cf. OT 16 e FR 21-22.

40 Ensinar é a primeira tarefa dos seguidores de Jesus, o qual mandou os apóstolos: "Ide e ensinai..." (cf. Mc 16,15; Mt 28,19). De fato, todo cristão tem a tarefa de anunciar a boa nova. Mas, dado que o ensinamento particular está exposto a subjetivismos deformadores da verdade, são os sucessores dos apóstolos ─ o papa e os bispos ─ que detêm essencialmente o magistério. É a esse ensinamento autorizado que normalmente se dá o nome de Magistério. O Magistério não é uma fonte de revelação acrescentada à Escritura ou à Tradição, mas interpretativa de seu sentido autêntico.

41 Do latim tradere = entregar; traditio = transmissão. O fato de uma geração transmitir às seguintes suas idéias, costumes, instituições... É usada mais em sentido passivo: aquilo que uma geração recebe das anteriores. A entrega sucessiva do que se recebeu faz a tradição formar uma cadeia que une a tempos remotos. No campo religioso, é um elemento muito importante. Aplica-se comumente àquilo que foi recebido e não passou a constituir a Sagrada

Vaticano II: "O ofício de interpretar autenticamente a Palavra de Deus, oral ou escrita, foi confiado unicamente ao Magistério da Igreja, o qual exerce em nome de Jesus Cristo"42.

    O Magistério é, por sua própria natureza, serviço para a fé; ministério para escutar, guardar, interpretar e anunciar a Palavra de Deus. Este serviço realiza-se dentro e a favor da comunidade dos crentes. E goza da autoridade que vem de Cristo.

    Finalmente, o Vaticano II reconhece que para a solução dos problemas morais não basta a Revelação, mas é necessária também a luz da experiência humana em suas manifestações múltiplas43. Alude, assim, à razão humana como fonte de ética cristã44. Afirma, expressamente, a insuficiência da Revelação ao reconhecer: "a Igreja, guarda do depósito da Palavra de Deus, do qual manam os princípios na ordem religiosa e moral, sem que sempre tenha à mão resposta adequada para cada questão, deseja unir a luz da Revelação ao saber humano para iluminar o caminho recentemente empreendido pela humanidade"45.

    O Concílio não só reconhece a necessidade da experiência humana na interpretação dos valores morais; afirma também a vinculação existente entre a Revelação e a experiência, de maneira especial no ensino concernente aos sinais dos tempos e sua leitura à luz do Evangelho.

    A expressão sinais dos tempos, consagrada na Constituição Gaudium et Spes46, tem origem evangélica (Mt 16,3). Seu reconhecimento impele a entrever na voz dos tempos a voz de Deus; a reconhecer Deus presente na história; a reconhecer os acontecimentos principais que influem na existência humana como lugar teológico47. A tarefa da teologia moral não é somente escutá-los e perscrutá-los (= investigá-los, examiná-los) atentamente, mas, sobretudo, interpretá-los, discerni-los e valorizá-los à luz da Palavra de Deus.


 

7. A atual crise da moral


 

    Temos que reconhecer um fato facilmente constatável em nossa situação atual. Sempre houve debilidades, inconsequências e comportamentos alheios ao ideal de conduta formulado pela pessoa. A vida real, formada por tantas limitações, era julgada com critérios bastante unânimes e universais, que esboçavam com suficiente exatidão a fronteira entre o ilícito e o honesto. Embora nunca chegasse a ser vivida plenamente, a moral sempre constituiu uma força orientadora para que a pessoa soubesse como devia se comportar. Apesar das discussões que pudessem se dar em torno de determinadas colocações e soluções, ninguém colocava em dúvida a validade das normas que regiam a conduta humana. E se esse ensinamento, ademais, apresentava-se com o respaldo da autoridade da Igreja e com uma procedência, mais ou menos distante, das fontes da Revelação, então sua aceitação não era problemática. Só os maus poderiam se atrever a renegar semelhante obrigação. E a pessoa fraca e pecadora continuava trabalhando para se aproximar o máximo possível do ideal apresentado.

    O fato mais significativo e característico da época mais recente, porém, é o forte sentimento de rejeição e agressividade provocado hoje pela simples ideia de moral. E essa dose de mal-estar e inconformismo se manifesta juntamente com um sinal ainda mais preocupante ─ o da indiferença ─, que pressupõe uma perda absoluta de interesse, negando-lhe qualquer importância para a vida

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Escritura. Apesar disso, também o que foi escrito teve normalmente uma pré-história de transmissão oral, mais dilatada no AT, mas também realizada no Novo. Assim, os atos e planos de Jesus foram, durante uma primeira época, transmitidos verbalmente. Por outra parte, a tradição complementa a Escritura, na qual não cristalizou a totalidade do ensinamento e das práticas recebidas. Mais do que duas fontes de revelação, trata-se de dois aspectos. Tradição e Escritura promanam ambas da mesma fonte divina; formam, de certo modo, um só todo e tendem para o mesmo fim (cf. DV 9).

42 DV 10.

43 GS 43, 44 e 46.

44 Cf. FR 24.

45 GS 33; cf. FR 49ss.

46 Cf. 4, 11 e 44.

47 A teologia católica dá o nome de lugares teológicos aos diversos domínios a partir dos quais o conhecimento teológico pode elaborar ser saber ou às diversas fontes nas quais se inspira: a Escritura, a Tradição, o Magistério, a liturgia etc.

real. Chega-se ao ponto de nem sequer dar-lhe atenção, considerando-se que o melhor é prescindir completamente dela.

    Diante da diversidade de situações e opiniões, as perguntas afloram à mente. Tem sentido falar de uma moral nos dias de hoje? Será que não perdemos a luz de alguns critérios, que servem

de orientação para a nossa conduta, para acabar caindo em um subjetivismo anárquico e descontrolado? Será possível ter alguma segurança em meio a opiniões tão diferentes? Em tudo isso não estarão se manifestando os sintomas de um relaxamento progressivo, de uma falta de autoridade? Não se terá exigido muito mais do que a pessoa é capaz de viver? E as respostas também serão muito diferentes, de acordo com a situação pessoal e psicológica em que se encontre cada um de nós.

    Mas, em qualquer hipótese, parece necessário excluir uma dupla solução, que pode ser pouco convincente por seu radical extremismo. Muitos ainda sonham com os tempos bastante próximos nos quais a concórdia e a segurança de uma doutrina se apoiavam na imposição doutrinal de tipo autoritário. Assim, o que se defende nessa primeira solução é que se levante a voz com maior ênfase para recordar e defender a tradição, calar as vozes dissonantes e definir com exatidão a fronteira entre o bem e o mal. Caso contrário, afirma-se, a novidade e o pluralismo de tantas opiniões continuarão fomentando o desconcerto e a desconfiança. A Igreja, sobretudo, deveria recorrer ao seu Magistério para impor a verdade e condenar os erros que não estão de acordo com sua doutrina. Se não quisermos que o nível ético continue descendo progressivamente, num momento como este a tarefa fundamental é manter os princípios, para além das fraquezas e inconsequências humanas.

    Outros podem tentar reagir pelo caminho oposto. Apesar da decadência e da corrupção que podem ocorrer, a crise atual corresponde a uma nova consciência da sociedade, que denuncia como falsos e hipócritas muitos dos princípios morais. Se os homens não vivem de acordo com a moral, isso significa que a moral já não corresponde às suas exigências atuais. Então, a tarefa básica consistirá na busca que for possível para acomodar a ética às necessidades e urgências do momento presente. Tratar-se-ia, inclusive, de realizar uma operação semelhante às liquidações comerciais, baixando o preço no mercado ─ com exigências menores ─, para ver se as pessoas se animam um pouco e passam a aceitar melhor o produto que lhes é oferecido. Se as pessoas não conseguem saltar a altura proposta, o remédio mais eficaz não seria manter essa altura ─ para não renunciar aos princípios de sempre ─, mas sim baixá-la de acordo com as possibilidades de agora.

    Ambas as posições parecem insatisfatórias: por um lado, não basta repetir, mesmo com mais força e energia, sem convencer; por outro lado, não se trata de reduzir e baixar, embora às vezes seja necessária uma adaptação, mas sim de autenticar e esclarecer. Parece ser mais urgente e eficaz o esforço por uma apresentação que, sem retirar nada daquilo que seja exigência verdadeira, torne mais compreensível e atraente a imagem de uma ética cristã.