quarta-feira, 17 de março de 2010

Aula São Carlos: Antropologia e Catequese

PROF. ULISSES ABRUZIO –MESTRE EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO – PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA – PUC – SP

Uma breve Introdução

ANTROPOLOGIA TEOLÓGICA E CATEQUESE

1. Origem e evolução da Antropologia

A Antropologia (anthropos = homem, ser humano; Logos = estudo, tratado) surgiu com o filósofo grego Heródoto, no século V a.C. Por ser o primeiro, pelo que se sabe, a tratar sistematicamente do tema é considerado o pai da Antropologia. Ao longo da história, porém, esta ciência passou por grandes mudanças, gerando várias correntes. Destacamos três delas:

a) A Antropologia Filosófica pagã, mas aberta ao transcendente. Os filósofos antigos buscavam a autonomia da razão, mas não desprezavam ou negavam a possibilidade da existência de divindades e até as levavam em conta, chegando até mesmo à divinização do cosmos.

b) A Antropologia Teológica (de índole judaico-cristã). É a que estuda o ser humano (Anthropos) tendo como referência fundamental Deus (Theos). Passou-se da centralização no cosmo divinizado (fase pagã) para Deus, quando o cristianismo suplantou a visão grega da realidade e colocou tudo o que existe na relação com o Deus revelado (fase cristã). A Antropologia teológica trabalha sobre a profundidade do ser: origem e fim, riquezas e limites, aspirações e linguagem, comportamentos, mas à luz da revelação divina. Visa-se chegar a algo fundamental: o ser humano é capaz de Deus, de acolhê-lo, conviver com ele, em comunhão e parceria com ele (cf. Catecismo da Igreja Católica – nºs 27-73).

Há um pressuposto para esta vertente da Antropologia: Deus não é uma fantasia ou um agregado mental na vida humana. Ele integra a própria estrutura humana e lhe confere a vocação transcendente, que impulsiona o ser humano a ir além de si, a aspirar ao infinito, a reconhecer suas limitações (fraqueza, enfermidade, erros, morte, pecado), que o desafiam a respeito do sentido da vida, do sofrimento, da morte e da pós-morte. Deus lhe dá ao ser humano a capacidade de reconhecer o valor de tudo o que existe e de transcender à realidade do aqui-agora, por um valor maior e mais plenificador. É exatamente esta busca do transcendente que ele humaniza de modo maravilhoso a si mesmo como ser humano (o humanum), isto é, quanto mais ele se insere em Deus e no Projeto dele, mais encontra a felicidade. E é esta extraordinária capacidade que o faz, também, humanizar tudo no cosmos, estudá-lo, manipulá-lo e canalizar todas as suas riquezas em vista da felicidade, um desejo insaciável que faz parte de seu ser como gente.

Aos poucos apareceram dois princípios estruturais na antropologia teológica: o arquitetônico e o hermenêutico. O arquitetônico como eixo do ordenamento de todos os eventos da história da salvação em função de um Plano que Deus tem para a história do cosmos, da terra e da humanidade: é o Plano Salvífico. O hermenêutico como portador da verdade primária sob cuja luz a teologia procura compreender e interpretar e interligar os aspectos da história da salvação. Todos os grandes pensadores do cristianismo colaboraram com o desenvolvimento da antropologia teológica, vista no seu todo.

c) A Antropologia Filosófica Secularista realiza a mudança da centralização em Deus para a centralização no homem, mas sem Deus. Este passo ocorreu na época moderna em conseqüência da secularização e do ateísmo, este último desenvolvido no seio da filosofia européia e, especialmente, pelo comunismo. Para os filósofos secularistas, mas este vertente tem seus inícios já no Renascimento (século XVI), Deus desaparece de cena e cede lugar ao homem. O espírito humano abre-se a um novo modo de ver e agir. Dá-se um violento contraste com o modo precedente de entender todas as coisas e acontecimentos, que tinha Deus como centro de tudo e de todo interesse humano, e passa a assumir o homem como centro de tudo. Acontece, portanto, a passagem do teocentrismo para o antropocentrismo. Os mais importantes filósofos dessa virada histórica do modo de pensar o sentido e a razão de ser do ser humanos são Descartes, Hume, Spinosa, Hobbes, Kant. Mas é Immanuel Kant, sem dúvida, quem atinge o ápice do pensamento independente da referência a Deus, à religião, ao afirmar que o homem não é mais simplesmente o ponto de partida, mas também o ponto de chegada da reflexão filosófica e de toda a história. É ele que abre as possibilidades para que dali em diante muitos filósofos dêem continuidade, aprofundem e motivem levar à prática o secularismo ateu.

2. A Antropologia teológica hoje

2.1 – Sempre em busca. Não há dúvida – e o dia-a-dia o comprova – a humanidade continua sua busca do sentido da vida e da história, do sentido da existência do cosmos e de tudo o que nele existe, especialmente do próprio ser humano na complexidade da história do cosmos. Multiplicam-se sem cessar artigos, livros, filmes, canções, obras de arte, que alimentam o debate levando-se em conta a existência de Deus nesta trama misteriosa do mundo e da vida humana ou negando-a, ridicularizando-a e considerando toda e qualquer religião como uma invenção prejudicial ao ser humano.

A Igreja cristã, porém, continua firme em sua fé e em sua missão, afirmando que o mistério do ser humano só encontra sua verdadeira explicação e compreensão no mistério do Verbo encarnado, isto é, no Filho de Deus que assumiu a condição humana na história com o nome de Jesus de Nazaré (cf. GS 22). Para a Igreja o referencial “Adama” (homem e mulher), portanto, é o ser humano [1] criado à imagem e semelhança do próprio Deus (mistério da criação). Este ser humano, no uso de sua liberdade, assim o ensina a Igreja, rompeu com o seu Criador (pecado original), Deus, porém, não somente não o abandonou, mas deixou plasmado na natureza própria do ser humano a necessidade de Deus e o impulso natural para buscá-lo. E ele concedeu à liberdade humana a graça do chamado incessante para restabelecer a união homem-Deus, Deus-homem. Depois de manifestar-se de muitos modos ao longo da história, quando chegou à plenitude do tempo, na linguagem bíblica, Deus deu-lhe a maior prova de amor, o seu próprio Filho divino em forma humana (cf. Hb 1, 1; 1Jo 4, 9-10), que viveu entre nós com plenitude humana, como o ser humano perfeito, por ser ao mesmo tempo “verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem”.

Portanto, assim crê a Igreja, é pelo Cristo que o ser humano é “justificado” (recupera a justiça perdida pelo pecado). E é a partir dele, nele, com ele e por ele, que o ser humano vive da graça do Pai, do Filho e do Espírito Santo: filiação (ao Pai), fraternidade-amizade (do, no e pelo Filho), inabitação (no Espírito Santo). É em direção a Cristo, o referencial humano-divino que, na liberdade, o ser humano procura alcançar progressivamente e com o impulso da graça que ele nos alcançou, “o estado adulto, a estatura de Cristo em sua plenitude” (Ef. 4,13). É este o cerne da Antropologia teológica cristã.

É a partir do olhar antropológico-teológico que detectamos o que a Revelação diz sobre o ser humano no contexto da obra da criação: uma criatura feita no tempo e que não teve existência espiritual antes da corpórea para usufruir da felicidade neste mundo e da glória de Deus na vida eterna feliz. Os textos bíblicos não pretendem apresentar dados científicos, mas mostrar o propósito de Deus, no relacionamento dele com os homens e, mais ainda, a sua experiência no mundo como ser humano em Jesus Cristo e, consequentemente, a identidade profunda e única do especificamente humano assim enriquecido com a comunhão com Deus e que abre o ser humano definitivamente e de modo privilegiado para a comunhão consigo mesmo, com os outros, com a natureza.

Este mesmo olhar de comunhão, assim plena, considera o homem como “imagem e semelhança de Deus” e tem a Jesus como a imagem verdadeira do Pai, e nós, como seu reflexo. E o ser humano como “imagem de Deus” (imago Dei), carrega em si mesmo as marcas do Criador, do Filho Redentor e do Espírito Santificador, principalmente em sua a capacidade de conhecer e amar o Pai, por meio de Filho, no amor do Espírito Santo e como co-criador e cooperado em seu Plano de Amor sobre o mundo e a humanidade.

2.2 A estrutura básica do ser humano segndo a fé. Um dos diferenciais da antropologia teológica judaico-cristã, em relação às outras antropologias, é constiuído por seu modo de entender e explicar o ser humano como um organismo psicofísico resultado da estreitíssima união entre corpo, alma e espírito, em constante tensão aperfeiçoamento, complementaridade e busca de transcedência. São Paulo, formado para ser rabino, em sua carta aos Tessalonicenses fala do ser humano como corpo-alma-espírito: “Que o espírito, a alma e corpo de vocês sejam conservados de modo irrepreensível para a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo” (1Ts 5, 23). É evidente que para ele a Antropologia não existia como discurso reflexivo e nem no decorrer do logo tempo da elaboração e finalização dos textos que hoje constituem a Sagrada Escritura dos judeus e a dos cristãos. Só posteriormente e muito lentamente, com a influência da cultura grega, é que se chegou ao seu início e no ocidente ao seu desenvolvimento.

Expliquemos um pouco, mas com os termos em hebraico, grego, letim e português, esta visão trinitária da pessoa humana, segundo a visão hebraica e que Paulo utiliza na carta aos Tessalonicenses: a) Corpo (bâsar, sarx, caro = corpo de carne) é a nossa realidade fisica, biológica); b) Alma (nephesh, psychè, anima = dimensão psíquica, afetiva, intelectiva, colitiva, relacional) é a dimensão vital similar a de todos os demais seres vivos, mas que possui em si, a diferença da dimensão da auto-consciência, do afeto-relacionamento, da liberdade, da vontade, do senso ético, da busca do bem, do belo, da verdade e da felicidade; c) Espírito (ruach, pneuma, spiritus = dimensão transcentente espiritual), é a dimensão exclusiva do ser humano, fruto da criação direta de Deus (sopro-ruach, ser vivente em Deus e para Deus [2]), que assegura a possibilidade de comunicação e comunhão dom Deus.

Esta reflexão é importante porque houve, na história do cristianismo, confusão entre os intérpretes e estudiosos, alguns afirmando que Paulo tinha uma visão tricotômica do ser humano, isto é, um composto de três partes separáveis, enquanto outros defendiam a concepção dualista de corpo e alma. Na concepção hebraica as três realidades se apresentam como dimensões autônomas, porém, formando uma unidade, um todo. O refinamento da reflexão concluiu que a alma e o espírito são imortais, ao passo que o corpo é corruptível, mas destinado à ressurreição, mesmo que de forma espiritualizada, segundo a convicção cristã.

E como surgiu a visão do dualismo corpo e alma? Na reflexão tradicional e oficial da Igreja cristã, o predomínio da cultura greco latina na teologia fez acontecer uma fusão entre “alma e espírito”, por mais que muitas vezes apareçam distintas. Com isso, quando, portanto, em teologia se fala em “alma”, entende-se por (ruach, pneuma, spiritus-espírito). É, porém, preciso deixar sempre esclarecido, que no dualismo cristão do ser humano como corpo e alma, obviamente está subentendida a visão trinitária, pois se faz uma clara distinção entre nephesh-psychè-anima (alma) e ruach-pneuma-spíritus, isto é, o sopro de Deus (espírito), que, porém, só é aceitável em nivel de fé revelada. É exatamente aqui que se destaca ainda mais a unidade na dualidade entre corpo, alma (incluindo o espírito), ao contrário da concepção maniqueísta que ensina a docotomia estraguladora do ser humano, ao colocar, como na filosofia de Platão, o corpo como uma prisão da alma, e que, portanto, o espírito (ruach-pneuma-spiritus) está, também ele, encarcerado no corpo humano e dele precisa se libertar e, mais ainda, diz o maniqueísmo, porque o corpo é obra do deus demônio, e por isso, deve ser desprezado e massacrado, sobretudo, em sua realidade sexual.

A discurso filosófico e teológico sobre a estrutura antropológica cristã tradicional do ser humano se plasmou nos escritos de são Tomás de Aquino. Ele, a partir do dualismo clássico, não se fecha na cultura grega e diz que a alma (no sentido de nephesh-psychè-ánima e, também, de ruach-pneuma-spiritus) é a “forma” do corpo, podendo subsistir sem a matéria corporal, pois mantém sua operação intelectiva apreendida mediante a operação sensorial, portanto do corpo vivo. Para ele, porém, o ser humano é um todo unificado, prejudicado, porém, em sua harmonia pelo pecado.

Os documentos do Magistério da Igreja afirmam que a alma é espiritual e dotado de imortalidade. Ora, se a alma é espiritual, não pode ser corrompida, pois sendo espírito, dotado de existência própria, autônoma e independente da matéria, não se extingue com a corrupção do corpo. Aqui, mas sem a explicitação que deveria existir, está se falando da ruach, portanto, do espírito humano no sentido espiritual, mas que só é aceitável, como já aludimos acima, para quem tem o dom da fé revelada. E este é um dos importantes diferenciais da fé cristã, qaunto à antropologia, em relação a todas as demais religiões e filosofias.

2.3 Homem e a Mulher. Segundo o dogma da criação, Deus criou o homem e a mulher à sua “imagem e semelhança”, com aptidão para a vida na graça e com dons, talentos, tendências e capacidades para cooperar no desenvolvimento deles mesmos até alcançar a plenitude deste crescimento pessoal e social e, também, para trabalharem no desenvolvimento e aperfeiçoamento do cosmos, primeiramente garantindo a continuidade de novos seres humanos na história. Deus, segundo a fé cristã, ao fazer o mundo com tudo o que ele encerra, deu a todos os seres a capacidade de se prepetuarem na história e se aperfeiçoarem. Ao homem e à mulher, também ele deu a missão de perpetuar a espécie, usando para isso, como os demais seres, a sexualidade e a genitalidade. A diferença, porém, é que eles não usam apenas na força do instinto, mas de um dom especial, denominado amor, que abrange, como natural e sagrado, o plano carnal, mas que, ao mesmo tempo o ultrapassa, de modo a expressar uma vinculação e complementação profunda dos dois, numa dimensão espiritual radical de amor, que lhes dá força para enfrentar tudo o que vier a acontecer com eles e os filhos. Homem e mulher, no plano da criação, são seres iguais e complementares: iguais e dênticos quanto à natureza, e complementares quanto às particularidades físicas e psicológicas. Realizam-se humanamente e santificam-se mutuamente dentro dos princíopios da ética e das leis da moral. A ambos foi confiada a responsaabilidade pela realização do Plano de Deus na história.

A fé revelada diz que ambos têm igual dignidade, embora no Antigo Testamento, dentro das limitações da evolução da consciência e da praxis humana naquela época, a mulher tenha tido sua participação restringida na família, sociedade e na religião, o que imcompreensivelmente ainda perdura em muitas partes do mundo e nas religões todas, inclusiva na cristã. No Novo Testamento, essa situação tem tudo para ser mudada a partir do fato de Jesus ter aberto espaço para a mulher e, também por Deus ter dado um destaque todo especial a Maria de Nazaré, Mãe do Senhor Jesus, na história da salvação. A Igreja cristã, porém, deixou-se dominar pela ideologia machista do judaísmo do qual brotou e, também, da cultura greco-romana na qual se inseriu, e isso perdura até hoje. Ela não assumiu realmente a “igualdade da dignidade humana entre homem e mulher”, restando-lhe, portanto, uma dívida história, que ainda está longe de ser solucionada.

A Igreja cristã ensina que a sexualidade-genitalidade humana encontra sua perfeita orientação e canalização no matrimônio monogâmico indissolúvel, destinado à complementação mútua no amor conjugal e familiar e à procriação da espécie para perpetuá-la no mundo. E ela colocou o matrimônio como um Sacramento, isto é, como minifestação visível da indissolúvel união de amor, isto é, da berith-diatheke = aliança esponsal de Deus com a humanidade, que alcança a sua manisfestão plena na “Nova e Eterna Aliança”, estabelecida e selada por Jesus Cristo, com seu próprio sangue derramado na cruz e sua vida dada em resgate por nós.

2.4 O mistério do mal: Pecado e Justiça Original. A Antropologia teológica estuda, também, a historicidade, fragilidade, finitude humana com base em dados bíblicos. Ela explicita que o ser humano perdeu a justiça original (sua harmonia plena), quando cometeu o pecado convencionalmente denominado de original. Para reconquistar esse estado foi necessária a redenção, oferecida gratuitamente por Deus e selada no mistério pascal de Jesus Cristo. Embora o ser humano recupere esse estado original no Batismo, a teologia ensina que as conseqüências do pecado original continuam a existir enquanto permanecemos neste mundo. Disso decorre que todo ser humano não apenas deve ser constantemente vigilante para não errar, mas, que ao pecar - pois isso acontece e sempre acontecerá -, ele tome consciência e se levante, confiante na misericórida de Deus e no seu próprio esforço, para continuar crescendo na fidelidade ao seu infinito amor de Pai e Mãe.

A doutrina do pecado original é essencial para a fé cristã, mesmo que a teologia não consiga dar-lhe uma explicação que satisfaça nossos questionamentos, já que se trata de um mistério. Entretanto, deve-se distinguir entre o pecado das origens e o estado de pecado no qual nasce cada ser humano. A Igreja cristã analisando a história concluiu que a humanidade vive mergulhada num caos tão grande, que deve ter havido algum acontecimento que o tenha causado, mesmo que alguns escritores digam que o relato do pecado original seja apenas simbólico. De qualquer modo, o relato não foi inventado e traz em si uma mensagem revelada de grande importância. Ele foi apresentado e continua sendo apresentado como “o tipo” do pecado, pelo qual teria o ser humano começado a utilizar a liberdade para se tornar autônomo e independente em relação a Deus, fazendo-se a si mesmo um absoluto. Deste modo, com o pecado de um ou de alguns, todos pecaram e estão na condição de pecadores. A participação dos descendentes no “pecado de Adão e Eva” se dá, portanto, pela “solidariedade” universal dos próprios seres humanos como corresponsáveis pela instalação do mal no mundo e por sua continuidade ao longo da história.

2.5 Creacionismo, evolucionismo... O Magistério da Igreja não nega o evolucionismo ou a evolução do ser humano - homem e mulher - ao longo da histórica dos cosmos, especialmente da terra. Ele o admite, porém, desde que a partir do criacionismo, isto é, da ação direta de Deus, na criação do ser humano. Não há aqui contradição alguma com a ciência, mas uma complementação por meio da fé revelada. A Igreja se fundamenta na Sagrada Escritura e acena para essa possibilidade, na parábola que explica para o povo daquele época a necessária intervenção de Deus na criação explícita e diferenciada do homem e da mulher em comparação com todas as demais criaturas (cf. Gn 1, 26-31; 2, 18-25). Deus, na linguagem literária utilizada pelos escritores sagrados, modelou o homem e a mulher, à semelhança do que faz um oleiro, a partir de materiais pré-existentes na natureza que fora criada pelo próprio Deus e que o texto bíblico sintetiza no termo “barro”, “limo”, “humus”. E há no relato o permenor do “soprar de Deus” (a ruach que sai de Deus) nas narinas do futuro do ser, que passaria, por causa disso, a existir como ser humano, como esta ruach, como o diferencial mais importante, conforme a o próprio dizer da Sagrada Escritura. Deus-Criador é quem de imediato faz do nada, cria (bará) a alma espiritual e imortal (ruach) em cada homem, em cada mulher.

A criação do ser humano, segundo a narrativa bíblica, é diferente dos outros seres porque ele é“imagem de Deus” por motivo, entre outros, da “ruach” que recebe diretamente de Deus. Os demais seres se reproduzem sozinhos, de maneira natural, mas o homem e a mulher necessitam que Deus crie a alma-espírito e a infunda na corporeidade humana. Este ato criador - assim a Igreja crê e ensina, acontece no instante da concepção (da fusão espermatozóide-óvulo), já que a vida do ser humano se inicia, segundo ensinamento da Igreja, neste preciso momento.

Há um outro campo muito polêmico quanto à origem do ser humano. É a hipótese do poligenismo, isto é, do aparecimento de diversos casais de um mesmo tronco originário e não de um único (revelado na Bíblia como Ish (homem) e Ishaa (Mulher), do mesmo tronco Adama (ser humano) [3]. O poligenismo é totalmente rejeitado pela Igreja por ser contrário à doutrina do pecado original universal e, também, contrário à unidade da História da Salvação. Mesmo assim, apesar de não aceito, há uma brecha de tolerância se se considerar Adama, “ser humano”, como gênero humano, que depois evoluíu. E, para a Igreja, em sua Antropologa teológica, essa hipótese não contraria nem o criacionismo e nem o evolucionismo, desde que haja um tronco único no começo da criação do gênero humano na história, do qual o restante da humanidade partiu em sua saga na história.

3. A Catequese e a Antropologia Teológica judaico-cristã

3.1 Agraça supoõe e aperfeiçoa a natureza humana. Escreve Santo Tomás de Aquino que “a graça supõe a natureza” (Suma Th in I , 2,2 ad 1; IV, Lec 6) e que ela não suprime a natureza humana, mas a aperfeiçoa (Suma Th I, 1, 8 C). Ora, nossa fé tem por dogma que o Filho de Deus assumiu a natureza humana, demonstrando, portanto, a extrema valorização que dá a Santíssima Trindade ao ser humano, por ela mesma criada. E, isso, apesar da ruptura com Deus que a liberdade humana fez acontecer e continua fazendo acontecer. Sabemos que, no Plano amoroso de Deus para redenção da humanidade o mistério da encarnação do Filho de Deus, tem exatamente, como objetivo maior, ajudar o ser humano a optar pelo caminho da salvação, isto é, da sanação da ruptura efetuada. A maravilha da redenção realizada pelo mistério pascal de Jesus Cristo, e por todas as graças daí decorrentes, atuam para aperfeiçoar a realidade frágil, histórica, limitada e pecadora da natureza humana, que Deus quer participante de sua felicidade infinita, por puro amor, gratuidade absoluta em querer partilhar seu ser e sua felicidade conosco.

Ora, como consequência dessa verdade e dessa convicção, para quem tem o dom da fé revelada nem poderia haver o mínimo de menospreza pela natureza humana, tal qual é, ainda mais depois da encarnação do Filho de Deus, por meio de Maria e da missão redentora que ele realizou como gesto maior do amor de Deus para conosco. Por pior que alguém se comporte, acumulando em si e fazendo acontecer a maldade, nada justifica um mínimo de descaso, de desprezo por ele. Ao contrário, para quem tem o dom da fé, tudo deve ser feito para colocar à disposição dele todos os meios possíveis para que se recupere, se redima, se converta e passe a viver em coerência com sua dignidade humana, enriquecida com a grade de ser filho ou filha de Deus.

a) A importância de dar a necessária atenção à natureza humana. A Palavra de Deus encarnada, Jesus Cristo, não apenas assumiu a natureza humana, em tudo, menos o pecado, mas deu a máxima atenção à concreticidade do ser humano em seu todo físico, psíquico, relacional, espiritual. E sua experiência junto aos excluídos sociais o direcionou, mais e mais, ao logo da vida a fazer por eles uma opção preferencial, radical, pois a situação em que viviam em nada correspondia ao Plano divino de felicidade já aqui na terra para cada pessoa humana.

Fica difícil ou até mesmo impossível explicar, melhor ainda, justificar como no decorrer dos dois mil anos do cristianismo tenha acontecido e crescido entre os cristãos uma tão alienante visão da pessoa, mensagem e missão de Jesus Cristo, retirando-lhe a corporeidade e inserção na história e, sobretudo, a opção preferencial pelos pobres que ele viveu, de maneira tão concreta, e que se tornou uma das suas marcas mais fortes. Os textos dos evangelhos são abundantes nos relatos a respeito da atenção eficaz do Filho de Deus para com as pessoas enfermas, famintas, prejudicadas por distúrbios psíquicas, por dramas pessoais, pessoas excluídas da sociedade, consideradas publicamente como pecadoras, vistas e rejeitadas como amaldiçoadas por Deus... É impressionante a sensibilidade de Jesus tanto com as pequenas coisas em favor do ser humano, como dar um copo de água, acolher e abençoar crianças, quanto também, com relação a situações mais complicadas como a dos leprosos, epilépticos, enlouquecidos, endemoniados. Mas ele não apenas fica no dado pessoal, pois há situações sociais, religiosas e políticas que ele não aceita e, nisso, citamos como exemplo, a sua atitude no Templo, profanado pelo negociantes, o tipo de vida e de governo de Herodes que, numa demonstração de frouxidão extrema, manda matar João Batista, este Herodes que avisa Jesus para sair do território dele, mas a quem Jesus responde chamando-o por uma palavra terrivelmente ofensiva ao governo e, portanto, passivel de duros castigos, por ser um desrespeito frontal à autoridade civil: “ide dizer a esta raposa!”. Jesus não foi uma alienado político nem religioso, já que seu objetivo neste mundo era lutar para fazer acontecer a salvação plena do ser humano, isto é, para que pudesse viver feliz aqui terra e na eternidade.

Um dos mais impressionantes ensinamentos de Jesus, segundo a narrativa de Mateus é a plena identificação que ele faz dos mais pobres com ele mesmo. É um ensinamento difícil de se aceitar até hoje e um dos que menos os cristãos colocam em prática: Vem, querido de meu Pai. Estive com fome e me deste de comer, estive com sede e me deste de beber, estava doente e cuidadeste de mim, estava no cárcere e me visistaste, não tinha onde morar e me acolheste. Cada vez que fizeste isso a um dos mais sofridos seres humanos foi a mim que o fizeste (cf. Mt 25. 31-46). Identificar Jesus e atendê-lo na pequenez dos mais sofridos, pobres e excluídos é, sem dúvida, um sinal claro da verdade da conversão do discípulado missionário. E, afinal de contas, isso é, em verdade e realmente “fazer a vontade do Pai!” como Jesus viveu e como ele quer que vivamos.

3. Catequese e realidade humana. Partir de realidade humana (ver) é óbvio no modo de Jesus ser, ensinar, fazer. O episódio dos Discípulos de Emaús (Lc 24, 13-35) evidencia isso, logo no começo, quando Jesus se soma aos dois caminhantes. Ele observa, escuta atentamente, interroga sobre o sofrimento deles, sobre o que de tão grave acoteceu para deixá-los assim tão abatidos e fazê-los desistir de tudo e fugir... Só depois de cuidar da realidade humana dos dois discípulos, da situação social, política e religiosa deles é que Jesus ousa dar sua opinião, iluminando tudo a partir das Escrituras Sagradas, desde Moisés. Mas ele o faz com tal pedagogia que chega a atingir a natureza humana integral dos dois, fazendo seus corações arderem, mobilizando-os para a oração, para a eucaristia e para a missão. Durante sua missão de ensinar ele está atento às pessoas e se sensibiliza com os sofrimentos, de modo especial a fome e as doenças e as injustiças sociais. De acordo com este olhar atento sobre as manifestações da natureza humana Jesus adapta e incultura seu modo de ser e viver, sua mensagem e sua missão. Como judeu não se enquadra na racionalidade dos argumentos, mas se interessa por afeto, sensibilidade, relações humanas, sentimentos, amor, fraternidade, serviço, cura, justiça.

Ora, é impossível conseguir ajudar alguém a experimentar o alcance profundo e transformador do encontro pessoal com Jesus Cristo vivo sem levar em conta a densidade e fragilidade, a riqueza e pobreza da natureza humana, com tudo o que ela é, reage, tem e faz, a exemplo de como Jesus fez. Ver a partir do olhar da fé e com ajuda de todas as ciências a realidade humana, especialmente do dia-a-dia de cada pessoa e do que a envolve não é apenas questão de pedagogia, método; é parte integrante do processo de evangelização e catequese, liturgia e pastoral. Antes mesmo de falar de Deus e dos ensinamentos da Igreja é preciso cuidar do ser humano. E, hoje, isso se torna obrigatórico face à crise em que se encontra a família, a responsabilidade dos pais, à crise educacional da escola e ao desprezo tanto da ética e da moral,. Como da religião, de Deus e do valor e sentido da vida em si, mormente da vida humana, fomentado em troca de dinheiro por fortes grupos sociais, culturais e políticos. A catequese que não dedica uma boa parte do começo do processo de Iniciação à Vida Cristã e de todo o processo, à dimensão humana do catequizando, corre o sério risco de construir a educação do discípulo missionário sobre areia, portanto, certamente fadado ao desmoronamento. O mesmo ocorrerá se ela não preparar bem os catequizandos para serem construtores de uma sociedade na qual se priorize a vida, a dignidade humana, a justiça social, a fraternidade e a paz.

Concluindo

A antropologia bíblica e teológica cristã, em sua complexa e maravilhosa união entre básâr, nephesh e ruach, integra obrigatoriamente nossa vida e missão de discípulos missionários de Jesus Cristo. O Concílio Vaticano II, especialmente mediante a Gaudim et Spes revoluciona a Igreja Católica quanto ao modo de lidar com a concreticidade do ser humano como pessoa e como cultura, construtor da mundo justo e solidário e como história. Mais que teoria, que tem em si seu valor, o que interessa para nós cristãos é a questão da praxis, com o objetivo de superar o fosso entre fé-vida, fé-cultura que predominou por tanto tempo em nosso modo de ver, interpretar e viver a fé cristã, fosso que também acontece em relação ao nosso modo de vivê-la pessoal, comunitária e socialmente.

A segunda Conferência Episcopal dos Bispos de América Latina, em Medellín, deu um passo gigantesco ao aplicar em nosso continente os ensinamentos da Bíblia e da Gaudium et Spes, mormente, pela ousada eclesiologia inspirada na Comunidade Eclesial de Base, pela profetica maneira de fazer e operacionalizar teologia a partir da incipiente mas esperançosa Teologia da Libertação, pela encarnação e inculturação da fé na situação real do povo e pela opção preferencial pelos pobres. Medellín, no capítulo sobre catequese, diz que as situações verdadeiramente humanas fazem parte do conteúdo da catequese (cf. Medellin, 8). E o Documento da CNBB Catequese Renovada, Oreintações e Conteúdo assume esta orientação de Medellín e propõe a prática libertadora a partir do princípio metodológico da interação fé-vida (CR 112-113; 116-117)

A catequese dispõe, neste momento da história, das melhores orientaçoes da Igreja e da experiência da base para realmente se renovar. E tanto o Diretório Geral da Catequese, o Diretório Nacional de Catequese como o Documento de Aparecida e o Estudo da CNBB Inciação à Vida Crsitã estão aí à disposição para que demos continuidade ao processo renovador e libertador que vem marcando a história da nossa Igreja em nosso continente, mormente no Brasil. Os desafios hoje de um mundo cada vez mais plural e de verdadeira e ampla mudança civilizacional estão a exigir de nós esta coerência profética e martirial da conversão, da fundamentação e da práxis em vista da salvação plena do ser humano, tanto em sua realidade humana aqui na terra como para a vida eterna feliz no seio da Santíssima Trindade



[1] “Adam” (originado do húmus, do barro) denominação usada em Gênesis é um termo ambíguo já que pode ser traduzido para se referir a um indivíduo como para o gênero humano, o ser humano. O mais comum, tanto no uso hebraico como cristão, foi aplicá-lo a um indivíduo que passou a ser denominado de “Adão”. Isso ocasionou, portanto, a limitação de a “imagem e semelhança de Deus” ao homem, fundamentando, em grande parte, o machismo judeu e cristão. Aconteceu que não se prestou suficientemente atenção ao fato de que na tradução dos 70 para o grego a distinção é realizada corretamente. A tradução de Adam é Anthropos, portanto, gênero humano e não um indivíduo. Ora, a partir dessa compreensão, fica claro que a mulher, integrante do gênero humano, é antropos, portanto, imagem e semelhança de Deus igual ao homem.

[3] Adama-adão (originário do húmus ou barro), em hebraico, é um termo ambíguo, pois serve para denominar o ser humano como espécie, isto é, o gênero humano, como para designar um determinado indivíduo. É preciso muito conhecimento para poder distinguir no texto bíblico uma coisa de outra.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Aula matão: valorização do jovem na Igreja

Uma interpretação teológica da violência contra a juventude nos tempos atuais

Dr. Pe. Paulo F. Dalla-Déa, faap.
Teólogo Prático-Pastoral
Membro da SOTER


INTRODUÇÃO GERAL AO TEMA

Esta mesa de debates focaliza juventude e violência. Não sou habilitado para falar da violência juvenil. Sociólogos e outros profissionais são mais qualificados para isto. Contudo, não posso me recusar a deixar de dar a minha contribuição. Sou teólogo e como teólogo quero trabalhar. A ciência teológica atual acha possível e desejável trabalhar em equipe com outras abordagens cientificas e humanas, já que todo discurso sobre Deus é um discurso (inspirado ou não por Deus) em linguagem humana sobre Deus. Para Deus se fazer entender pelo humano ele precisa falar no nível de compreensão dos humanos ou eleva-los á sua realidade de vida. Como não estamos na realidade divina (a vida eterna) e sim no tempo e no espaço especifico da humanidade, precisamos ser humildes e reconhecer que a linguagem teológica também tem limitações de tempo e espaço. Assim, a ciência humana, também sujeita às mesmas regras, pode nos ajudar.
Hoje se fala muito sobre juventude e sobre adolescência, como sendo uma espécie de cultura específica. Ou uma sub-cultura da sociedade capitalista. A cultura juvenil como conhecemos no Ocidente cristão - não parece existir na sociedade muçulmana e na sociedade hindu. Cultura juvenil é produto do capitalismo, cada vez mais disseminado pelo planeta. Mas não se pode esquecer que a juventude é uma etapa da humanidade. É preciso inserir o conceito juventude na sociedade geral. Uma sociedade cheia de contradições, de competitividade e de rachaduras de toda espécie. Uma sociedade que não gera a vida, mas a morte de milhões de seres humanos para manter a vida de outros milhares deles. A pobreza e a morte de pessoas na África, na Ásia e em outros lugares do planeta ajuda a manter a vida sustentável da Europa e da América do Norte. O planeta não agüentaria se todos os povos tivessem o nível de vida dos americanos ou mesmo dos europeus. Precisaríamos de mais planetas Terra no sistema solar para que isto fosse possível.
Visto deste ponto-de-vista macro, a juventude é um corte de parte da humanidade capitalista atual. Ou seja: não se podem ver os jovens sem se considerar as contradições capitalistas e os desejos dos adultos na sociedade eles são muitos: o consumo gera desejos e comportamentos contraditórios. Ao mesmo tempo em que se quer e deseja a paz, se quer manter a desigualdade, esquecendo que a falta de oportunidades e de emprego para todos reprime o desejo de consumo e de bem estar, gerando uma repressão que se pode explodir em roubos e mais violência. Uma sociedade de iguais é uma sociedade menos violenta por definição e por experiência, veja-se a Europa. Lá, há mais de cem anos foram feitas as reformas agrária, educacional e salarial que ainda se precisa fazer no Brasil. E é uma sociedade muito menos violenta. Os protestos da juventude em Paris só reforçam esta tese: quando as oportunidades são negadas (como pelos atuais neoliberais governos da França), a violência explode também lá.
Mas há outras contradições: cada vez mais o trabalho no campo é mecanizado e as pessoas vivem nas cidades. Ora, até num zoológico, onde o espaço fica superpovoado, os animais (e o bicho Homem) ficam mais sujeitos a uma convivência estressante e violenta. Mesmo em sociedades mais calmas. Onde há muitos homens vivendo em um espaço apertado, haverá mais violência. Em espaços rurais ou ajardinados, a violência tende a ser muito menor, embora ela não seja eliminada. Para não existir violência seria preciso algumas intervenções radicais no humano, suprimir a adrenalina dos corpos, lobotomizar as pessoas ou isola-las da convivência social. Como estas soluções representam mutilações na existência humana, não são desejáveis nem possíveis. Assim, como a população mundial das cidades anda crescendo, nós – humanos – vamos ter que nos adaptar com um nível mais elevado de violência diária. Violência que não pode ser incentivada, mas terá que ser minimamente suportada.
Mas há também problemas específicos da realidade juvenil. Os adolescentes tendem a ter um nível de onipotência juvenil muito grande. A onipotência juvenil se caracteriza pelo fato do adolescente achar que ele pode tudo. Que com ele as coisas ruins não vao acontecer porque ele é “mais esperto” que os adultos que conhece. Que eles estão ultrapassados, não sabem de nada e por isto se dão mal. Adolescentes de classe média e alta, que nunca trabalharam não tem noção dos perigos de suas atitudes, das conseqüências que elas trazem, já que os pais destas classes tendem a superproteger os filhos e filhas. O fato de ainda não precisarem trabalhar para se sustentar já configura uma superproteção, que é estendida na medida em que os pais podem suportar os filhos em casa indefinidamente. Há casos de filhos adolescentes com 35 anos ou mais. A adolescência termina com a mudança de casa e conseqüente autosustento. Antes disto, mesmo com 55 anos, a pessoa ainda continua adolescente.
Este sentimento de onipotência é mais forte quando os pais protegem mais os filhos, funcionando como escudo protetor de problemas e solucionando os problemas dos filhos sem o esforço deles. Por isto, se tem muito mais problemas de acidentes com adolescentes e jovens bêbados de classe média e alta do que com adolescentes e jovens de classes baixa e pobre. A solução deste problema se situa em níveis diferentes: o trabalho, a escola e a religião. São eles que ajudam a colocar os limites nas pessoas e a impulsionar a vivência social num nível civilizado.
O problema é que a escola não pode mais se apoiar no trabalho já que o adolescente e o jovem sabem que não há trabalho para todos. Numa sociedade com alto índice de desemprego como é o Brasil, o trabalho formal é quase um privilégio de poucos. E a escola também não pode apoiar-se na religião, visto que a religião está tão fragmentada em tantos cultos, cristãos ou não, que não pode mais dar o freio moral que impede que o homem seja lobo de outro homem. A sociedade capitalista elimina a hipótese Deus e só a considera seriamente quando esta hipótese gera lucro. Assim, Deus não interessa, mas os cultos religiosos sim, porque geram trabalho e consumo para muitas pessoas. O conteúdo da religião e seu efeito social é praticamente descartado, enquanto se valoriza cultos da prosperidade sob a alcunha de cultos religiosos. Os cultos da prosperidade não são cultos a Deus, mas ao dinheiro. Se vou rezar na congregação para que eu resolva os meus problemas financeiros e arrume emprego que dê status e dinheiro, não estou preocupado com Deus, com Jesus ou com outra entidade, ou sequer com o meu próximo, mas comigo mesmo, numa visão individualista e não solidária. Um culto assim não ajuda as pessoas a ser mais humanas, mas as embrutece mais ainda, colaborando para a manutenção do status quo.
A religião cristã ficou famosa na história da humanidade por introduzir o cuidado com os pobres, com os doentes e com os desvalidos, impondo limites morais e tornando a convivência social menos animal. Mas uma religião individualista – embora faça um sucesso enorme na mídia – não consegue se contrapor ao comportamento capitalista que gera as contradições e os problemas sociais que vemos. Muito pelo contrário, abençoa e justifica a exploração do homem pelo homem, jogando isto para o fatalismo do discurso da vontade de Deus. Deus não merece esta culpa. Pelo menos, o Deus revelado na Bíblia: Javé, o libertador\resgatador dos pobres e dos desvalidos.
O cristianismo tradicionalmente tem funcionado como freio moral para as pessoas. Esta é a crítica da Ciência desde o Renascimento. Uma crítica fundamentada para a religião cristã da época. Desde a virada epistemológica feita pelo Concilio Vaticano 2º, a religião cristã tem sido também motor de revoluções e lutas, superando a fase mais repressora. A Revolução Cubana (década de 50), a Revolução Sandinista (década de 80) e inúmeras lutas contra regimes militares (incluindo o Golpe de 1964, no Brasil), foram motivadas por uma visão religiosa libertadora da vida e da Bíblia. Infelizmente, esta visão tradicional é ainda a mais dominante, mas não é mais a única.
Há uma possibilidade de se trabalhar com os jovens e os adolescentes com uma visão religiosa menos conservadora e mais revolucionária, mais conforme com a autonomia que o mundo atual exige das pessoas, desde Kant. Se Jesus, o Cristo, fosse tão obediente como querem alguns discursos religiosos conservadores, ele não teria morrido na cruz, mas de idade. A cruz era o castigo infringido aos revolucionários do Império Romano. Ao longo de séculos, o cristianismo foi cooptado pelo Estado (a partir da virada constantiniana, em 313 d. C.). Desde o século 19, a Igreja e o Estado vem se libertando mutuamente, seja por iniciativas da sociedade, seja por iniciativa da Igreja. A partir de 1965, a Igreja tomou a si muito deste fardo e anda (ainda de forma lenta) se separando do Estado.
Feita esta longa e necessária introdução, contextualizando a realidade social que vivemos no capitalismo dependente e selvagem do Brasil, passemos a algumas considerações sobre temas mais específicos da Teologia.

1. O SACRIFICIO DA JUVENTUDE: Deus quer a morte dos jovens?

Sou teólogo prático-pastoral, não sou biblista nem teólogo sistemático. Portanto, não vou fazer o que não é de minha competência. Não vou fazer uma análise minuciosa do texto bíblico ou uma exegese dele. Apenas quero fazer alguns comentários que sirvam para a nossa análise e a nossa pastoral eclesial. Nem por isto menos importante ou relevante . A partir da leitura bíblica que se faz, se obtém uma forma de pensar e refletir a vida e a teologia. O primeiro e paradigmático texto é do susto que levou Isaac com seu pai Abraão.


“Depois destes acontecimentos, Deus submeteu Abraão a uma prova. Chamando-o, disse: “Abraão”, e ele respondeu: “Aqui estou”. 2 E Deus disse: “Toma teu único filho Isaac a quem tanto amas, dirige-te à terra de Moriá e oferece-o ali em holocausto sobre um monte que te indicar”. 3 Abraão levantou-se bem cedo, selou o jumento, tomou consigo dois criados e o filho Isaac. Rachou lenha para o holocausto e se pôs a caminho para o lugar do qual Deus lhe havia falado. 4 Ao terceiro dia Abraão levantou os olhos e viu de longe o lugar. 5 Disse então aos criados: “Ficai aqui com o jumento enquanto eu e o menino vamos até lá. Depois de adorarmos a Deus, voltaremos a vós”. 6 Abraão tomou a lenha para o holocausto e pôs às costas do filho Isaac, enquanto levava o fogo e a faca. E os dois continuaram caminhando juntos. 7 Isaac disse ao pai Abraão: “Pai!”–“O que queres, meu filho?”respondeu. E o menino disse: “Temos o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto?” 8 E Abraão respondeu: “Deus providenciará o cordeiro para o holocausto, meu filho”. E os dois continuaram caminhando juntos. 9 Chegados ao lugar indicado por Deus, Abraão ergueu ali o altar, colocou a lenha em cima, amarrou o filho e o pôs sobre a lenha do altar. 10 Depois estendeu a mão empunhando a faca para imolar o filho. 11 Mas o anjo do Senhor gritou-lhe dos céus, dizendo: “Abraão! Abraão!” Ele respondeu: “Aqui estou!”12 E o anjo disse: “Não estendas a mão contra o menino e não lhe faças mal algum. Agora sei que temes a Deus, pois não me recusaste teu único filho”. 13 Abraão ergueu os olhos e viu atrás de si um carneiro preso pelos chifres num espinheiro. Pegou o carneiro e ofereceu-o em holocausto em lugar do filho. 14 Abraão passou a chamar aquele lugar: “O Senhor providenciará”. Hoje se diz: “No monte em que o Senhor aparece”. 15 O anjo do Senhor chamou Abraão pela segunda vez lá dos céus 16 e lhe falou: “Juro por mim mesmo – oráculo do Senhor – uma vez que agiste deste modo e não recusaste teu único filho, 17 eu te abençoarei e tornarei tão numerosa tua descendência como as estrelas do céu e como as areias da praia do mar. Teus descendentes conquistarão as cidades dos inimigos. 18 Por tua descendência serão abençoadas todas as nações da terra, porque tu me obedeceste”.
Gn. 22
A estória do sacrifício de Abraão é sobre um grande engano. Abraão creu que Javé se agradaria do sacrifício de seu filho Isaac, visto que todos os deuses que ele conhecia gostavam disto. Os deuses têm o estranho costume de gostar da morte dos homens e saborear o seu sangue. Na antiga Mesopotâmia de Abraão, os deuses se agradavam com sacrifícios de crianças e de jovens. No antigo Egito, os deuses se agradavam com os funerais dos Faraós, em que eram enterrados dezenas de empregados juntos com eles. Na civilização Inca, o deus Sol também “pedia” o coração de suas vitimas. Atualmente, o capitalismo financeiro faz este papel de exigir a morte de muitos para a manutenção dos privilégios de poucos, a morte na África subsaariana é a face negra da vida de europeus e norte-americanos. Os ídolos têm esta pretensão: receber a vida dos humanos. O relato bíblico diz que Deus chamou Abraão e lhe pediu esta prova de fé e de amor, como os outros deuses. Abraão, acostumado que estava a ver sacrifícios humanos aos deuses não estranhou o “pedido” feito. Era normal a morte de jovens e crianças.
O carinho de Abraão por Isaac se mostra que ele não deixa que seu filho leve o fogo e a faca, ambos instrumentos que poderiam causar algum dano. Mas o relato é surpreendente: Javé se mostra muito melhor do que se esperava: não só impede o sacrifício na última hora, como também substitui a vitima por uma vitima animal e ainda mostra que o sacrifício humano não é agradável aos olhos do Senhor. Nunca.
Javé, o Deus revelado na Bíblia, não quer a morte das pessoas. Pelo contrário, quer que elas vivam e possam transmitir a vida, pois ela é dom. Pelo contrário, os cultos dos deuses requerem a morte de muitas pessoas, a seu serviço. O critério bíblico para se saber se o Deus que está à nossa frente é Javé, o Deus libertador\resgatador da Bíblia, é este: se ele exige ou não a morte das pessoas.
O mundo adulto frequentemente se engana sobre a divindade e sobre os jovens. E, em vez de eles serem protegidos porque são o futuro da existência humana sobre a Terra e a fonte de renovação das culturas dos povos, são frequentemente imolados em sacrifício, num engano de solução de problemas. Por que Abraão achou que Javé poderia querer a vida de seu filho herdeiro? O capitulo anterior informa que:

Por isso o lugar foi chamado Bersabéia,32 porque ali os dois fizeram juramento. Tendo feito aliança em Bersabéia, Abimelec e Ficol, chefe do exército, partiram de volta ao país dos filisteus. 33 Abraão plantou em Bersabéia um tamarindeiro e ali invocou o nome do Senhor , o Deus Eterno. 34 Abraão residiu muito tempo na terra dos filisteus
Gn 21

Será que, por ter residido muito tempo entre os filisteus, Abraão se esqueceu do essencial do seu culto a Javé e da sua função como pai? Abraão é um adulto colocando o seu filho para ser sacrificado. A Bíblia não nos informa em que apuros Abraão se meteu para ter que fazer um sacrifício tão grande, mas pode-se ver que é mais fácil para o adulto, mesmo tendo um carinho grande pelos jovens, colocá-los como parte do problema e com a responsabilidade de toda a solução, seja ela qual for.
É mais fácil para a sociedade adultocentrada colocar ao jovem o peso de ser sacrificado para resolver os seus problemas. O jovem torna-se vitima oferecida no altar dos sacrifícios normais. Quem tem que resolver o problema da previdência e das aposentadorias? Não serão as futuras gerações que agora ingressam no mercado de trabalho? Quem tem que ser sacrificado no problema do emprego? Não é a juventude que sofre o desemprego por não ter experiência? Quem tem que ir à guerra combater nas linhas de frente? Não são os jovens soldados comandados por oficiais adultos? Quem tem que resolver o problema ecológico da poluição (séc. 19 e 20) e da superpopulação de pobres do planeta (século 20 e 21)? Quem são as maiores vitimas da violência do trânsito das metrópoles? Quem são as vítimas do tráfico e dos vícios da sociedade drogada e anestesiada em falsas felicidades? Quem são as maiores vítimas da AIDS e das doenças sexualmente transmitidas?
Ora, estes problemas não foram causados por eles, mas serão deixados pelos adultos para que eles resolvam, agora ou mais para frente. Quando eles forem adultos, quem sabe, tenham a sorte de empurrar para futuras gerações também. O jovem questiona como Isaac fez, mas tem sempre uma resposta com a de Abraão, vaga e imprecisa. Ideológica. Resposta que esconde a verdade nua e crua dos fatos.
No relato de Gênesis, o anjo de Deus (face visível de Javé) intervém na última hora porque – senão – Abraão iria acabar concluindo o ritual. Não será tarefa da teologia de hoje mostrar à sociedade adultocentrada que é preciso segurar a sua mão, antes que os jovens morram em sacrifício pelos problemas dos adultos? Será que sempre os jovens terão que levam o peso da solução dos problemas como Isaac levava a lenha, enquanto Abraão – carinhosamente – levava o fogo e o punhal? Os instrumentos do sacrifício estavam na mão do adulto, enquanto o jovem levava o peso maior e se preparava – sem entender direito – para ser amarrado e oferecido como sacrifício para o culto. Que, neste caso, não seria um culto a Javé, mas a um ídolo. Apenas os falsos deuses exigem o sacrifício de outros para si. Javé – pelo contrário, proíbe este tipo de culto e se desgosta dele. O relato da encarnação de Jesus, o Cristo, é o relato da divindade que se torna humana para se auto-imolar. Deus não manda que outros façam sacrifícios, ele mesmo o faz em lugar do homem. O messias esperado é uma autorevelação de Deus, de um Deus tão surpreendente que se torna homem e se imola pelo homem. É uma historia bem diferente. Uma história de amor e sacrifício. Bem diferente do que vemos entre humanos, onde os sacrifícios costumam ser empurrados para as futuras gerações.
No relato bíblico, a bênção que Abraão recebe passa pela vida do seu filho Isaac, porque atinge a sua descendência. Ironicamente, o texto bíblico termina com a vida do jovem se tornando bênção para o adulto.

2. A MANIPULACAO DA JUVENTUDE PELOS ADULTOS GERA A MORTE

A manipulação é algo sistematicamente usado na sociedade capitalista do espetáculo global. Manipula-se pela falta de informação e pelo excesso dela. Vindo de interesses tão diferentes como díspares, a informação excessiva faz com que a população se sature dela, deixe-a de lado por não saber mais qual fonte é confiável. Se as fontes são todas confiáveis, porque as informações são contraditórias? Porque pesquisadores de nível internacional se contradizem em números de pesquisas? Não será porque são empregados de multinacionais diferentes, com interesses em conflito? Gostaria de me reportar para um texto bem interessante da Bíblia. É o relato de Davi e de Golias. Porque Davi venceu Golias? Foi APENAS porque Deus estava a seu favor? Mas isto não foi atribuído a um milagre e sim a um atuar conjunto entre Javé e Davi. O texto vai todo o capitulo 17 de 1º Samuel. Vou resumir um pouco o texto:

v. 1-3: Introdução do relato
4-11: a descrição de Golias e o medo dos israelitas
12-37: Davi chega ao acampamento e é desprezado por ser jovem pelo irmão mais velho (adulto)
38-39: Numa tentativa de proteção do adulto ao jovem, o rei Saul dá a sua armadura para Davi, que não consegue andar com ela e a tira.
40-42: Davi pega as suas armas e enfrenta Golias e é desprezado por ser novo e bonito.
43-47: inicio da luta: insultos mútuos.
48-51: Davi acerta a pedrada e corta a cabeça de Golias (invenção de novo maneira de lutar que não é percebida pelos militares adultos)
52-54: fuga dos filisteus e entusiasmo dos israelitas
55-58: o rei Saul (adulto) quer conhecer a família de Davi

O que isto nos fala? Que Davi foi sempre desprezado por ser novo e bonito. “Galã de novela só serve para aparecer e fazer figura...” é o que pensavam de Davi. E ele mostrou que não era nenhum “loiro e burro”, mas alguém que tinha cabeça no lugar e uma fé em Javé que lhe era motor de ações concretas e não idealizadas. Enquanto os adultos, acostumados ao combate da guerra e (por isto mesmo) vendo a realidade a partir de uma única ótica, não conseguiam resolver o problema do desafio de Golias, homem extremamente forte e aparelhado para a luta, Davi inventou um novo tipo de abordagem, a partir do conhecimento que ele tinha. A partir da sua experiência em lutar para defender o rebanho, ele nocauteia Golias, para depois vencê-lo. Na luta corpo-a-corpo, ninguém teria chance contra Golias. Por isto mesmo, Davi não usou esta técnica de luta, mas percebeu uma nova forma de abordagem, a partir da autoconfiança do seu adversário. Nenhum adulto pode perceber isto, porque estavam vendo o problema pela mesma ótica.
Por ser jovem e inexperiente nas artes da guerra e por incorporar um tipo de conhecimento desprezado pelos adultos, Davi conseguiu vencer o combate. Será que Davi era o único pastor daquele campo de batalha? Com certeza não. Muitos eram pastores recrutados para aquela guerra. A grande esperteza de Davi se mostra em dois campos distintos: em não usar as armas dos adultos (a armadura de Saul), que só poderia atrapalhar, e em não usar a técnica conhecida de combate, mas em inventar uma nova modalidade. Aí podemos ver onde é que Javé estava combatendo com Davi: inspirando-o a ser criativo em suas soluções, enquanto todos estavam preocupados em usar os conhecimentos tradicionais, confiando em suas próprias forças e técnicas.
Hoje também, os melhores jovens têm desprezado o conhecimento e a manipulação da mídia e feito as suas próprias escolhas, que ainda são desprezadas pelos adultos, com discursos preconceituosos. Este é mais um tipo de violência acometida contra os jovens de hoje. Os jovens não têm a experiência dos adultos. Por isto mesmo, eles trabalham e criam coisas novas, partem para novas soluções dos mesmos problemas. E é assim que fazem a sociedade avançar. O discurso de “no meu tempo as coisas eram diferentes, os jovens respeitavam mais os mais velhos...” é profundamente ideológico, conservador e violento. Violência simbólica, mas nem por isto menos paralisante. O desprezo pela inexperiência e pela beleza de Davi ainda se reproduz nas pessoas e nas falas de hoje, aqui e agora, por muitos.
Outro texto que gostaria de comentar sobre manipulação é o texto do banquete de morte em que foi decidida a morte de João, o batista.

21 Chegou um dia oportuno, quando, por ocasião de seu aniversário, Herodes ofereceu um banquete aos grandes de sua corte, aos comandantes e pessoas ilustres da Galiléia. 22 A filha de Herodíades entrou e se pôs a dançar, agradando ao rei e aos convidados. Herodes disse à moça: “Pede-me o que quiseres e eu te darei”. 23 E lhe jurou: “Tudo que me pedires eu te darei, ainda que seja a metade de meu reino”. 24 Ela saiu e foi perguntar à mãe: “O que é que eu peço?” Esta lhe respondeu: “A cabeça de João Batista”. 25 Ela voltou apressadamente à presença do rei e fez o pedido: “Quero que me dês agora mesmo, numa bandeja, a cabeça de João Batista”. 26 O rei ficou triste, mas não quis deixar de atendê-la por causa do juramento e dos convidados. 27 Sem tardar, mandou um carrasco com a ordem de trazer a cabeça de João. Ele foi e degolou João na cadeia. 28 Depois trouxe a cabeça numa bandeja e a deu à moça, que a entregou à mãe. 29 Sabedores do fato, os discípulos de João vieram pegar o corpo e o sepultaram.”
Mc 6, 21-29

Este texto é exemplar em muitas coisas. Nele vemos como os adultos manipulam e roubam os jovens. A mãe da dançarina (adulta) manipula e rouba o presente que a filha (adolescente\jovem) deveria ter como paga pela dança de entretenimento após o jantar dos ricos governantes. Ela dançou, mas quem recebeu a paga foi a sua mãe, que nada fez. A jovem dançarina faz o que todo adolescente faz ao adulto que confia: pergunta o que é o melhor a fazer. O adulto (mãe) não pensa na jovem que pergunta, mas manipula a resposta em favor de si e de seus problemas, explorando a inexperiência e a confiança da jovem. O que deveria ser o pagamento pela dança sem compromisso se transforma então em solução de um problema de um adulto, vingando-se de outro adulto incômodo.
O governante adulto não conseguia resolver o problema público, que estava num impasse político-religioso. A solução pública se tornava um fardo. O fardo foi removido pela manipulação de um adulto, colocando a responsabilidade da morte na pessoa da jovem dançarina. A ela coube pedir a cabeça de João, o batista, resolvendo o impasse e ficando com a responsabilidade pública do fato. O casal adulto de governantes se safa do peso de dar a sentença, que agora não precisou nem de julgamento, nem de tribunal, nem de testemunhas e nem gerou rebelião de protesto. O conchavo político foi usado a favor da dominação e da exploração do povo, ficando João, o defensor dos pobres e de sua opinião, morto e a jovem dançarina responsabilizada. O jantar festivo dos grandes dominadores acaba em morte dos pobres. A festa dos ricos termina com a morte dos pobres e a manipulação dos jovens.
Gostaria de pensar que este é um fato isolado, mas tenho visto muitos jovens que – não tendo a esperteza de Davi e nem a sua própria opinião diante dos fatos – ao perguntar aos adultos qual a chave dos problemas, acabam manipulados e roubados. Ajudam o mundo adulto a ficar mais rico e a colocar a culpa simbólica dos problemas nas gerações mais jovens. A ingenuidade da dançarina se mostrou na confiança sem limites no mundo dos adultos. Ela deveria ter desconfiado, nem que fosse um pouco só, de que ela corria o risco do mundo adulto pensar mais em si do que nos jovens.


3. PLANO DE JESUS PARA OS JOVENS

Uma vez que já vimos algumas formas de manipulação e de violência da sociedade adulta contra o mundo dos jovens, passemos a ver algo mais positivo. A relação de Jesus (um jovem pregador com visões bem diferentes da leitura da Torá feita naquele tempo) com os jovens de seu tempo e de sua cultura. O primeiro texto será o da ressurreição do filho da viúva de Naim.

11 Tempos depois Jesus foi para uma cidade chamada Naim, acompanhado dos discípulos e de uma grande multidão. 12 Ao aproximar-se da porta da cidade, saía o enterro de um jovem, filho único de uma viúva. Uma multidão numerosa da cidade o seguia. 13 Ao vê-la, o Senhor ficou com muita pena e lhe disse: “Não chores”. 14 E, aproximando-se, tocou o caixão; os que o carregavam, pararam; e Jesus disse: “Moço, eu te ordeno, levanta-te”. 15 O morto sentou-se e começou a falar, e Jesus o entregou à mãe. 16 O medo se apoderou de todos, e louvavam a Deus, dizendo: “Um grande profeta surgiu entre nós”; e: “Deus visitou seu povo”. 17 A notícia do fato correu por toda a Judéia e por toda a redondeza.
Lc 7

O texto bíblico só nos dá as informações essenciais. Não nos informa do que morreu o jovem. Acidente de trabalho? Doença? Assassinato por revanche ou romance? O que é certo é que não sabemos nada sobre isto. E temos outra certeza: contrariando a sua práxis normal, é Jesus que se adianta e se oferece para consolar e para curar\ressuscitar. Jesus achou aquela situação insustentável: um jovem não deveria estar morto, ainda mais quando a sua mãe não tem mais com quem contar. As viúvas em Israel dependiam do trabalho de seus filhos ou da caridade da comunidade, em geral também muito pobre. Havia poucos ricos em Israel naquele tempo. E, embora a esmola e a caridade com os órfãos e as viúvas fossem mandamentos bíblicos, isto poderia não ser suficiente para o sustento de tantas viúvas e pobres naquela época. (Cfr. 1Rs 17,7-24; 2Rs 4,8-27)
O certo é que Jesus não se conforma àquela situação e vai lá para dar um jeito nisto. Primeiro, Jesus fala com a mãe, a mais interessada e a mais sofrida. Falar com mulheres em público era já – de si – um fato escandaloso. Depois Jesus, sem cerimônias, toca o caixão (tocar o caixão só era permitido aos locos ou aos profetas) e ainda dá uma ordem estranha: ordena ao jovem que se ponha em pé. Ele não estaria realmente morto? Ou ele teria morrido por falta de perspectivas e sonhos? Sim, porque isto também mata. Causa uma depressão incurável que vai minando aos poucos a energia vital de uma pessoa, até o ponto em que ela se acaba ou que põe fim à sua própria vida. Seria ele um suicida? Não sabemos, mas no ambiente bíblico, o suicídio é raro.
Jesus veio para dar a vida, em todas as suas formas (Jo. 10,10). Jesus não aconselha ou pede, mas ordena: o lugar do jovem é de pé diante da própria vida. O jovem primeiro se senta (sai de sua posição submissa), depois fala (dá sua opinião) para um grupo que certamente o escuta surpreso (jovens não tinham direito de opinião reconhecida até os 30 anos), depois retorna ao seio da família (retomando a sua função de proteger a vida de sua mãe) Ele agora tem uma missão que lhe é confiada. Aos pés da cruz, João é encarregado da mesma missão: proteger e amparar a mãe de Jesus. (Jo. 19,25-27) A missão do jovem torna-se de não só manter e desenvolver a própria vida, mas a de proteger e manter a vida de outro.
Dar e proteger a vida é uma missão a que precisamos ajudar os jovens a desenvolver. Isto é não só sair da letargia de ficar deixado e depressivo, minando as próprias energias vitais. É preciso pôr-se de pé e dar a sua própria opinião, dizer o que se sente e o que acha da vida e das relações que ela está tecendo. Mas – ainda hoje – sob o pretexto de que o jovem não tem opinião, a sociedade não quer escutar o que o jovem tem a dizer. As nossas campanhas de conscientização são frequentemente campanhas de adultos para jovens. Será que eles são têm nada a dizer sobre a sua vida, sobre a sociedade, sobre a Igreja ou sobre os próprios problemas? Nesta mesa mesmo, quem é o jovem convidado para discutir os problemas da juventude? Parece mesmo que só Jesus (que não era velho) se importa com o jovem, com sua morte e com sua opinião.
Quem sabe, nós da Igreja, tenhamos que fazer a mesma coisa: escutar mais os jovens antes de querer ter as respostas prontas para trabalhar com eles. O papa João Paulo 2º chega a dizer que a Igreja é chamada a escutar os jovens. Diz mesmo que a Igreja precisa aprender deles, aprendendo a escutar deles a sua voz e a sua opinião. (Christifidelis Laici, 46). O papa chegou aqui muito próximo desta atitude jesuânica. Falta agora as nossas comunidades darem espaço de participação completa aos jovens. Eles podem não ter a sua opinião perfeitamente elaborada e esquematizada, mas têm mais conhecimento da própria realidade que nós, que temos as idéias assentadas, mas nem sempre correspondentes à realidade, porque ela já mudou.
Última observação: Naim é uma insignificante cidade da Galiléia, um lugar pobre e desimportante. Jesus não leva em conta nada disto: se compadece, ressuscita e escuta o jovem pobre com o mesmo carinho que vamos ver demonstrar ao jovem rico. Para muitos, é mais fácil escutar os jovens ricos, com mais anos de estudo e com mais formação. Será que eles têm mais opinião ou mais problemas? O rap, o hip-hop, o funk, o samba e tantos outros ritmos e formas poéticas dos pobres parecem nos mostrar o contrário: são os pobres que – vivendo mais imersos nos problemas – acabam por refletir e opinar mais sobre eles, embora a sua voz seja constantemente desvalorizada pela sociedade. Que insiste em ouvir mais a opinião dos ricos e dos filhos da classe média. Será que a Igreja não poderia ter uma prática diferente, já que ela é chamada a ser o grupo seguidor de Jesus, o Cristo?
Passemos a outro texto de Jesus se relacionando com uma outra pessoa jovem, desta vez uma menina.

21 Depois que Jesus atravessou de barco novamente para a outra margem, uma grande multidão reuniu-se em torno dele. Ele se achava junto ao mar. 22 Chegou um dos chefes da sinagoga, chamado Jairo. Logo que o viu, caiu aos seus pés e 23 pedia-lhe com insistência: “Minha filhinha está nas últimas. Vem impor-lhe as mãos para que se salve e viva”. 24 Jesus foi com ele, e grande multidão o seguia e o apertava de todos os lados.
(...)
35 Jesus estava ainda falando, quando chegou alguém da casa do chefe da sinagoga, dizendo: “Tua filha morreu. Para que continuar incomodando o Mestre?”36 Ao ouvir, porém, a notícia, Jesus disse ao chefe da sinagoga: “Não tenhas medo! Basta crer!”37 E não deixou que ninguém o acompanhasse, a não ser Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago. 38 Ao chegar à casa do chefe da sinagoga, Jesus viu a agitação e muitos chorando e se lamentando. 39 Entrou na casa e lhes disse: “Por que toda esta agitação e este choro? A menina não morreu! Está dormindo”! 40 Eles riam-se dele. Mas ele fez sair todo mundo, tomou o pai e a mãe e os que levava consigo, e entrou onde a menina estava deitada. 41 Pegou-lhe a mão e disse: “Talitá cumi !”, o que quer dizer: “Menina, eu te ordeno, levanta-te!” 42 Imediatamente a menina se levantou e se pôs a caminhar, pois tinha doze anos. E as pessoas logo se encheram de grande espanto. 43 Recomendou-lhes muito que ninguém viesse saber do ocorrido, e disse para darem de comer à menina.

Mc 5

A interrupção do sermão de Jesus faz com que ele se interesse pelo drama humano. Enquanto sai, ele se atrasa a chegar, por causa de outra mulher, que sofria de hemorragia. Este texto foi suprimido porque não nos interessa neste momento. Mas é um texto de grande riqueza de detalhes e digno de uma leitura feminista da Bíblia, para notar como Jesus trata as mulheres. Voltemos à menina.
Jesus é ridicularizado por falar que a menina ainda tem chance de viver. O que teria matado aquela menina? Não sabemos, mas Jesus – como no caso anterior – ordena a imediata ação. O fato só reforça a afirmação que fizemos sobre que a vontade de Jesus, o Cristo, não é que as pessoas jovens possam estar perdendo a vida em atitudes ou fatos que os levem à cama e à morte.
Também aqui, a menina tem a ordem de levantar-se. Jesus não parece mesmo querer a juventude deitada ou prostrada. A atitude deve ser de se por de pé diante da vida, combatendo os problemas e inventando soluções novas. Como Davi. Quando Jesus retoma a leitura da Torá e dos Profetas, ele o faz de uma nova forma. A própria leitura que Jesus, o Cristo, faz da Bíblia é nova e retoma o melhor dela. As duas ressurreições retomam o “espírito” de Elias.
Passemos à atitude de Jesus com relação a outro jovem que lhe aborda: um jovem rico e com sonhos nas nuvens. Ele não tem que se preocupar com a sua própria manutenção e com a sua vida. Por isto mesmo, joga as suas preocupações para a outra vida. A vida temporária está boa, como será a vida eterna?

17 Quando Jesus se pôs de novo a caminho, alguém veio correndo, ajoelhou-se diante dele e perguntou: “Bom Mestre, o que devo fazer para ganhar a vida eterna?”18 Jesus respondeu-lhe: “Por que me chamas de bom? Ninguém é bom a não ser Deus! 19 Conheces os mandamentos: Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não darás testemunho falso, não prejudicarás ninguém, honra pai e mãe ”. 20 Ele disse: “Mestre, tudo isso eu tenho observado desde a minha juventude”. 21 Jesus olhou para ele com amor e disse: “Só te falta uma coisa: vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no céu ; depois vem e segue-me”. 22 Mas ao ouvir isso, ele ficou triste e foi embora abatido, porque possuía muitos bens.
Mc 10
Jesus é contra a riqueza? O texto posterior explica que Jesus acredita que a riqueza sempre será um fardo para quem a tem. Porque precisa sempre se ocupar dela para manter e desenvolver o que tem. Assim, não será possível se desenvolver e crescer na fraternidade, porque a fraternidade e a solidariedade minam a riqueza que se pode ter, socializando os bens. Um rico extremamente solidário é como uma roda quadrada: um conceito contraditório de si mesmo.
Mas o texto diz também que Jesus olhou o jovem com amor. Jesus via o coração e os sonhos daquele jovem. Ele era sincero na pergunta, não colocava nela nenhuma segunda intenção. Era uma pergunta vital para ele. Por isto, Jesus só pode responder no nível da vida: Jesus propõe um projeto de vida, novo e desafiante. Algo que aquele jovem ainda não tinha: uma vida de aventura na confiança de Deus, no seu projeto e nas pessoas que viviam com ele. Aí os sonhos malogram: é fácil querer tocar as nuvens. O difícil é se elevar do chão. Dá medo, porque se perde a segurança. E é isto que Jesus propõe: o desafio de perder a segurança do dinheiro para conquistar a liberdade de quem tem projeto de vida comum. Este é o resultado do amor de Jesus por aquele jovem. À pergunta sobre a vida eterna em geral, Jesus contrapõe uma proposta de vida comum bem concreta. Esta seria a chave da felicidade que o jovem estava tanto buscando e jogando para uma outra vida. Jesus propõe uma vida outra, diferente de tudo o que ele já conhecia. Uma aventura nos braços de Deus e de seus amigos. Parece que a adrenalina foi muito forte e o jovem não agüentou enfrentar o risco de perder os medos. Os medos nos amarram e nos põem seguros. Por causa deles, não fazemos muitas coisas, ou não fazemos nada.
Vida comunitária e podre. Este era o projeto de Jesus, o Cristo. Vida solidária com os sofredores, com os pobres, com os doentes, com os aprisionados. Afinal, a boa noticia não veio para eles? (Lc. 4,16-29 apresenta o texto de Is. 61,1-2; 58,6). A vida individual ou individualista é mais segura e menos arriscada, porque alguém só tem que se preocupar consigo. E quando a vida está muito ruim, pode-se sempre por fim a ela. Esta é a causa maior para o suicídio. Quem tem um projeto de vida comunitária precisa se ocupar com tantas coisas e pessoas que não pode conceber o suicídio. Isto iria privar a vida de muitas pessoas do dom de sua vida repartida.
Não há provas e pesquisas concretas, mas será que uma parte dos números de acidentes de trânsito, envolvendo a morte de jovens, não se refere a suicídios disfarçados, fruto de uma vida vivida sem sentido? Há quem desconte nos outros a frustração da própria vida com atos de violência e há quem desconte em si mesmo. Especialistas andam cheirando este dado por baixo das estatísticas de acidentes de trânsito. O álcool é depressor de humor e – para uma pessoa já insatisfeita e depressiva – pode ajudar a tomar a coragem de acabar com a própria vida num acidente de trânsito, que apareceria nas estatísticas apenas como um acidente por imprudência. Um acidente de trânsito provoca a morte de forma rápida e – presumivelmente – sem dor. Os pais e os amigos, incluindo a namorada(o), não ficariam muito culpados com isto. Nem se precisa deixar uma carta explicando nada. Sai-se da vida de forma rápida... Para que isto aconteça, é preciso apenas ter um carro nas mãos, depois de uma festa. Os pobres têm menos esta oportunidade. Os pobres morrem mais de acidentes de trabalho e do uso de armas de fogo, incentivados pelo tráfico e distribuição de drogas.
Questão do sentido da vida não pode ser uma questão marginal. Se a vida não tem sentido, ela não merece ser vivida. Esta é a fonte de sofrimento psíquico de muitos jovens. A questão do álcool e das drogas, sejam pesadas ou leves, só mascaram a questão de fundo. As pessoas usam drogas para se sentir bem momentaneamente. Isto significa que elas não estão se sentindo bem. O que causa este desconforto? O fato de não ter sonhos e nem sentido afeta as pessoas de forma séria, mas invisível. É como uma sede invisível: o organismo precisa de água, mas o corpo não reconhece a sede que tem.
Uma sociedade consumista como a que temos possibilita uma satisfação total do desejo para um grande número de pessoas. Mas esta satisfação é apenas aparente: o humano tem sede de relacionamentos saudáveis, duradouros e solidários. Está no código genético do ser humano, sem cooperação ativa e sadia, não conseguimos manter a espécie viva sobre o planeta Terra. Ao satisfazer os desejos superficiais o dinheiro enterra o desejo mais vital em camadas profundas de nossa psique. O que não quer dizer que ele não esteja morto ou que ele não continue atuando de forma ativa em nossa vida. Só que agora, de forma a produzir neurose ou sofrimento. O mesmo sofrimento sentido como tristeza pelo jovem rico, que – sabendo que a proposta de Jesus era mais radical, mas mais realizadora – não conseguiu reunir forças para deixar tudo e seguir o mestre, mesmo a custo de viver uma vida sem sentido e sem esperança.
Quero trabalhar um último tema na relação de Jesus com os seus contemporâneos (ou pelo menos o que sabemos sobre ele através do testemunho dos Evangelhos). É a indignação ética. Nossos discursos eclesiásticos sobre Jesus, o Cristo, fazem crer que sempre estável e pacifico, distorcendo em parte o projeto de Jesus, o Cristo. Ele também tinha momentos de raiva e de indignação, como no caso da expulsão dos vendedores do Templo de Jerusalém. O texto vai abaixo.
13 Estava próxima a Páscoa dos judeus. Jesus subiu a Jerusalém 14 e encontrou no Templo vendedores de bois, de ovelhas e pombas e os cambistas sentados. 15 Fez um chicote de cordas e expulsou todos do Templo, com as ovelhas e os bois; esparramou no chão o dinheiro dos cambistas e derrubou as mesas. 16 Aos que vendiam as pombas, disse: “Tirai daqui tudo isso e não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio”. 17 Lembraram-se os discípulos de que está escrito: O zelo de tua casa me consome.
18 Os judeus tomaram a palavra e lhe perguntaram: “Que sinal nos dás para fazeres isto?”
19 Jesus respondeu: “Destruí este Santuário e em três dias eu o levantarei”. 20 Então os judeus disseram: “Quarenta e seis anos levou a construção deste Santuário e tu vais levantá-lo em três dias?”21 Mas ele falava do santuário de seu corpo. 22 Quando ressuscitou dos mortos, os discípulos se lembraram do que ele havia dito e creram na Escritura e na palavra de Jesus. 23 Enquanto estava em Jerusalém para a festa da Páscoa, muitos creram em seu nome ao verem os sinais que fazia.
Jo. 2

Este texto (como tantos outros) não tem unanimidade pelos exegetas. Alguns autores o colocam no inicio do ministério, outros no final. Não se sabe ao certo se a purificação do templo foi o gesto profético que pode dar o programa de pregação do novo profeta ou se ele foi a causa do desfecho final (a condenação à cruz), motivo para a sua condenação pelo povo de Jerusalém. Um povo ameaçado em seus empregos pode ser facilmente manipulado e convencido da necessidade da eliminação de uma ameaça.
A purificação precisava ser feita: a vida religiosa estava demasiada unida à vida política e econômica. O Templo era um lugar de dominação política (ficava ao lado da fortaleza Antonia, construída e administrada como sede do poder dominador), funcionava como banco (todas as ofertas em dinheiro ou em animais só eram aceitas depois que pagas em moeda do Templo) e como mercado (as ovelhas e bois oferecidos em sacrifícios só eram consideradas puras as que eram vendidas pelos empregados dos grandes sacerdotes, também grandes mercadores). O lugar não favorecia os pobres e nem a oração de quem quer que seja. A religião estava instrumentalizada como no tempo da monarquia, com reis e sacerdotes corruptos.
Os profetas lutaram e profetizaram contra a monarquia corrupta e arrecadadora de impostos de Israel. Jesus se insere no mesmo viés. A religião precisa ser fonte de justiça e de direito. Direito e justiça que favoreça os pobres. Porque – quando os pobres são favorecidos – toda a sociedade é favorecida, mas o inverso não é verdadeiro. A indignação e o ato violento de Jesus, o Cristo, se insere na mesma tradição dos profetas. Não estamos tratando aqui de uma violência gratuita ou auto-destrutiva, mas de uma violência positiva e combativa. Uma violência purificadora e rebelde.
Jesus era jovem ainda quando morreu. E é característica do jovem ter ideais e se pautar por eles. O processo de envelhecimento nos deixa cínicos, no pior sentido da palavra. A violência aqui relatada nos mostra que:
- Jesus não era nenhum mestre zen-budista, muito pelo contrário, era mais rebelde do que o desejado por alguns (herodianos, saduceus e grandes sacerdotes);
- Jesus e seu bando podiam ser perigosos para a estabilidade da religião dominada pelos ricos e opressores políticos (romanos).
Ao usar um recurso violento para a purificação do Templo, temos que considerar qual seria a outra possibilidade. Se Jesus fosse calmamente e conversasse com os cambistas e vendedores ele teria algum sucesso? Acho que a reposta é não.
A indignação ética é colocada por Jesus como uma forma de trabalho, geradora de forças para a obtenção de um objetivo. Jesus, o Cristo, não está na doutrina de que os fins justificam os meios de Maquiavel, mas sabe que é preciso de mais do que um discurso bem elaborado para mudar alguma coisa. É preciso que o discurso de mudança acompanhe uma prática de mudança. Sem esta união de discurso e prática, nada muda. E como dizem os franceses: quanto mais se muda, menos se muda. É a indignação ética que faz com que se colem o discurso e a prática. Sem ela, cai-se no fatalismo de que as coisas não mudam, porque sempre foi assim. Desde que existe humanidade, existe dominação e exploração, mas isto – com certeza – não é a vontade de Deus. Muito pelo contrário: a vontade de Deus é que o homem seja solidário e viva bem. Foi isto que Jesus, o Cristo, nos mostrou e nos revelou. Então, a indignação ética é o que nos move a ver que isto está errado. Que as coisas se põem de cabeça para baixo e que é necessário consertar isto. Cada geração tem a incumbência de consertar e arrumar as coisas para que a sociedade possa servir melhor a vida humana e não o contrário. É esta indignação ética que precisamos desenvolver na juventude de hoje.

4. AMARRANDO AS PONTAS

É preciso que se perceba que Deus não quer o sacrifício dos jovens ou dos homens. Abraão estava errado em sua religião, mesmo que ele fosse um homem de grande fé. Havia uma distorção no seu foco. E o grande milagre foi a correção que Javé operou em sua vida. Este processo foi de uma profunda conversão para Abraão. E é preciso que se saiba também que a vontade de Deus não é a dominação, mas a solidariedade entre a sociedade. São os deuses que exigem sacrifícios humanos, o Deus libertador exige que os humanos não morram, mas que vivam e façam viver. (Dt. 30,16)
A juventude sofre de uma violência simbólica, que não é menor do que a violência física. É preciso libertar a juventude deste condicionamento, mostrando a ela que o mundo adulto tem um interesse oculto em transformar o jovem em sacrifício de imolação aos deuses atuais. E eles são muitos. A atual sociedade capitalista é idolátrica e requer a morte de muitos para a vida de poucos. É preciso semear este tipo de indignação ética, mostrando aos jovens que o projeto de Jesus tem muito mais a ver com a sua vida do que ele pensa. Jesus, o Cristo, viveu e morreu em outra época, mas não está superado. Pelo contrário, o que está superado e rançoso é um tipo de visão e de discurso sobre ele. Um tipo de discurso que apresenta Jesus como “bom moço”, quando ele nunca foi isto. Este discurso, os jovens percebem que não serve para os tempos atuais. Com razão, porque ele é mistificador e fonte de domesticação dos jovens de todos os tempos. Bom mesmo é ler os evangelhos a partir da ótica certa: Boa Nova para os pobres.
A primeira coisa é perguntar para a juventude sobre a sua própria vida para que ela mesma seja protagonista de sua história. Sem isto, caímos na dominação adulto – jovem, que é do sistema que estamos (fazer PARA OS JOVENS). É preciso que eles sejam os autores de sua história. É o jovem que deve ser apóstolo de outro jovem, tanto na Igreja como na sociedade.
O nosso trabalho – enquanto teólogo e crente – é disponibilizar as ferramentas teórico-críticas para que eles possam construir um cristianismo que seja mais agente de transformação, pessoal e comunitária. Nada de armaduras e ferramentas de adultos para o combate. É preciso ser criativo, o que equivale a pensar de forma nova diante dos problemas. E se colocar de pé diante de outros jovens e dos adultos. Quando isto acontece, ele descobre um Jesus muito mais proclamador do Reino; um Jesus revolucionário e que não se vende fácil. Um Jesus que tem ideal e que chama a todos para que o sigam em seu projeto. Enfim, um Jesus que é um jovem pregador e que tem motivo para lutar e ser fiel ao ideal, mesmo que custe a cruz. Uma cruz que não é caminho de suicídio, mas caminho de ressurreição.

BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA

BÍBLIA SAGRADA – trad. feita a partir dos textos originais. Petrópolis: Vozes & Seafox engenharia de software, 1996.
BENTO XVI - A alegria da fé e a educação das novas gerações - discurso aos participantes da assembléia eclesial da diocese de Roma. CIDADE DO VATICANO, quinta-feira, 22 de junho de 2006. Disponível na Internet: www.zenit.org.it , 19 de setembro de 2006.
JOÃO PAULO II – Exortação Apostólica CHRISTIFIDELIS LAICI. São Paulo: Paulinas, 1989.
INSTITUTO DE PASTORAL DE JUVENTUDE – O jovem na bíblia: 20 roteiros para grupos. Porto Alegre: Evangraf, 1992.
QUAPPER, K. D. & SOLANO, B. T. – Rotundos invivibles: ser jóvenes em sociedades adultocéntricas. La Habana: Ed. Caminos, 2003 (Cuadernos Teológicos. Pastoral 4)

quinta-feira, 4 de março de 2010

Espiritualidade e vocaçao do catequista - Pe Paulo

VOCAÇÃO E ESPIRITUALIDADE DO CATEQUISTA

Pe Dr PAULO F DALLA DEA

Existe uma espiritualidade do catequista? O que é espiritualidade? De onde ela brota? Ela tem a ver com movimentos tipo RCC, Catecumenato ou Folcolares? Muitas são as perguntas a ser feitas neste assunto, por isto, vamos começar pelo início. O que é espiritualidade?

“Spiritu [i]” do latim, vêm de sopro, o que dá vida. Espiritualidade quer dizer exatamente isto: uma relação com Deus que possa dar vida e valor à realidade e à vida das pessoas. É a partir deste prisma que a pessoa tira forças em momentos difíceis e em momentos de crise (de vida, de valores, de fé). Toda espiritualidade cristã parte do Batismo.

O Batismo nos dá a graça de sermos Filhos de Deus, salvos por Jesus Cristo e santificados pelo Espírito.

Filhos: ser (existência), dom (hereditariedade) e de posse (herança) – o Batismo nos confere uma identidade nova, marcada pela Graça de Deus em nós. Nos confere os dons de Deus e a posse em uma nova Terra Prometida (herdeiros de Abraao – Gn 12)

Salvos: somos irmãos de Cristo (Filhos no Filho), participamos da encarnação da humanidade em Deus pela Cruz e ressurreição. E Jesus Cristo nos deixou a sua Igreja como dom da ressurreição. A Igreja nasce da morte e ressurreição de Jesus, como dom de sua permanência entre nós. E isto nos funda a fraternidade pascal, fonte da nova vida dos ressuscitados. A Igreja não é um grupo de pessoas que se comportam assim ou assado, mas um grupo de discípulos que querem escutar e conviver com o mestre de Emaús (Lc 24).

Santificados e apóstolos: de Pentecostes nasce uma Igreja missionária, animada na força do Espírito. A partir desta força somos animados para transbordar alegria e paz, levando a outros o testemunho de comunhão com todos os discípulos e com o Cristo Ressuscitado. A Igreja é entranhadamente missionária, porque compartilha a alegria do discipulado.

É a partir desta graça que entendemos o catequista: ele é testemunha de sua própria fé, de sua conversão de vida e de seu discipulado com o Ressuscitado. Ele é missionário não porque alguém o disse, mas porque faz parte de sua própria fé e de sua vida com Deus partilhar o que se viveu, o que se sente e o que se experimenta.

Quais são as bases de uma espiritualidade da catequese?

1. A fé: ouvir a Palavra de Deus e ser abastecido e alimentado por ela faz com que a fé se exercite. Como o catequista é ministro da Palavra, ouvir e deixar se questionar pela Palavra alimenta a fé e a faz crescer e robustecer. Entendemos assim a necessidade da leitura orante da Bíblia e da Liturgia das Horas, assim como a leitura diária da Palavra, através do Lecionário Ferial e Dominical. É a Palavra que nos educa e fortalece a fé.

2. A esperança: a celebração do mistério pascal de Cristo nos remete a uma espiritualidade da sua vinda, na esperança da volta e no exercício de uma espiritualidade que exercite a paciência do esperar. O que é a Eucaristia senão o exercício contínuo da espera das realidades definitivas? Celebrar a eucaristia é já experimentar o que ainda não chegou, mas que já se anuncia a partir das realidades sacramentais, garantia do que virá.

3. A caridade: a fé e a esperança têm caráter provisório, enquanto o definitivo é a caridade, manifestação mesma da própria essência divina. Onde existe a caridade, Deus está aí. O exercício da catequese está diretamente ligado a esta realidade: é porque queremos bem e nos preocupamos com as pessoas que queremos que elas experimentem a mesma realidade interna de plenitude que é a morada do Deus Triúno em nós e a sua ação na vida. A ação catequética tem sua raiz aí: na felicidade em plenitude da vida cristã dos discípulos de Emaús, que reconhecem o Senhor ao partir o pão.

O ministério da catequese brota desta última virtude (= força) teologal: a missao e a catequese brotam do AMOR CARITATIVO que há entre a pessoa e Deus e a pessoa e os seus relacionamentos humanos. A missão da Igreja – embora muitos possam pensar assim – não brota do desejo proselitista de aumentar as fileiras do meu grupo, de engrossar e dar maior densidade política (em todos os sentidos) do grupo, mostrando-o para a sociedade como força. Mas a missão da Igreja nasce do transbordamento da experiência da pessoa com o Senhor Jesus Ressuscitado. Como em Pentecostes, a missão dos discípulos foi a coroação dos 50 dias de experiência com o Ressuscitado, de fraternidade pascal e da força do Espírito que impulsionou os Apóstolos. Mais do que um mandato de fora pra dentro, a missão brota da experiência com o Ressuscitado, como Emaús (Lc 24). Mais do que um ato de proselitismo, a missão brota da necessidade de partilhar esta experiência vital com as pessoas que se quer bem. É mesmo uma partilha com aqueles que ama, porque se quer distribuir esta experiência tão boa que é o relacionamento vital com o Deus Triúno.

Assim, não podemos falar nunca de um professor, de um mestre ou de um pedagogo[ii] na fé: podemos apenas – como catequista – partilhar a experiência de discipulado que o Senhor nos concedeu. O ministério da catequese brota da caridade da Igreja para com as pessoas. Ao falarmos da caridade, lembramos de esmola, de cuidados aos doentes, de socorro a situações de emergência (terremotos no Haiti e Chile), mas nos esquecemos de que a evangelização brota da caridade que transborda. Quem tem a experiência com Deus, quer derramá-lo, passá-lo, transbordá-lo. Por isto, a catequese é missionária: é da mesma fonte de Pentecostes. Isto é próprio de quem está cheio e não de quem está vazio.

O catequista pode rezar muito e não ter espiritualidade, porque ela é que dá força vital para impulsionar os atos práticos que decorrem da espiritualidade que se tem. Um catequista que tem dificuldade de ânimo para realizar qualquer coisa, se renovar e fazer bem feito o seu trabalho catequético de partilha da fé, pode rezar muito, mas não ter espiritualidade, porque a sua oração não é verdadeira ou é muito deficiente. O catequista que faz tudo de má vontade, que não participa de reuniões, não consegue trabalhar junto com ninguém, precisa se questionar sobre a sua espiritualidade.

Na Eucaristia, fazemos nosso discipulado e dela é que brota a missão. O trabalho de catequese não é de passar um conteúdo, mas realizar um trabalho de introdução da pessoa (criança, adolescente, jovem, adulto ou idoso) no discipulado com Cristo. Quem faz o discipulado é o mestre Jesus (Jo 1, 38-42): Jesus diz, Vem e vê! (Ou seja: “Faça a experiência!”) André apresenta o irmão a Jesus: esta é a missionariedade, que não brota do proselitismo, mas do amor pelo irmão. O importante da catequese é o discipulado que precisa ser realizado com a pessoa (pessoinha ou pessoona...) e com sua família.

Sem este discipulado, vamos dar hóstias para todos, sem a correspondente evangelização. Gastar milhares de hóstias por mês não é critério de evangelização, mas de uma massiva sacramentalização, que pode ser deficiente de Evangelho. Estamos precisando de catequistas que tenham amor exclusivo pelo Evangelho de Cristo e pela pessoa que se está trabalhando, evangelizando. E isto resolve um monte de problemas gerados pelos preconceitos: problemas de gênero, de raça, de condição social, de cultura, de status social, etc. Se a catequese parte da atitude de amor ao Cristo e da pessoa que está sendo evangelizada, supera-se qualquer preconceito, qualquer dificuldade. Aprende-se a trabalhar com a pessoa, a conviver com ela.

A catequese não é a fé, não é a esperança, mas é a caridade posta em prática. A fé deve-se ter e exercitar, a esperança tem que ser celebrada, mas é na caridade que brota uma boa catequese, um bom discipulado.

O teólogo luterano D. Bonhoeffer faz uma distinção entre graça barata e graça preciosa. A graça de Deus tem exigências (graça preciosa), Deus dá de graça, mas exige resposta de nossa parte, de forma que o discipulado é exigido e não é opcional. Nós, católicos romanos, temos a tendência de baratear a Graça, dando sem critério os sacramentos, sem exigências maiores de conversão e de vida. Aí as pessoas recebem e não dão valor nenhum. As igrejas evangélicas têm muitas exigências de vida para se manter fiel da Igreja. O discipulado é exigido e a partir daí o fiel diz: encontrei Jesus. Peraí, consoco as pessoas não podem encontrar Jesus? Qual a diferença entre um católico que recebeu o sacramento de qualquer jeito (ás vezes, sendo empurrado para isto: Graça barata) e um evangélico que (depois de receber o sacramento da Igreja Católica) encontrou Jesus? É o discipulado que faz toda a diferença na vida desta pessoa, que – se for sincera – muda de vida e de atitudes para com Deus e para com os irmãos. É este discipulado que está fazendo a diferença e que nós precisamos iniciar na catequese. Sem ele, haverá sacramentalização, mas não evangelização. Claro que uma coisa não anula a outra, mas a evangelização é condição necessária pra se receber o sacramento e não o contrário, como está havendo em muitos lugares.



[i] (es.pí.ri.to) s2g. 1. Componente não corporal de ser humano vivo, que segundo crenças religiosas ou de outra natureza sobrevive à morte do corpo; ALMA 2. O conjunto de atributos, funcionalidades e características não materiais do ser humano; ALMA 3. Rel. Suposta entidade imaterial, superior às coisas terrenas 4. Rel. Para os espíritas, a alma dos mortos desencarnados. 5. Rel. Qualquer entidade sobrenatural, seja do bem, seja do mal (espírito demoníaco, espírito iluminado) 6. Princípio vital, que existe à parte da matéria e que insufla vida aos seres e coisas materiais; SOPRO. In: Dicionário Caudas Aulette: (http://aulete.uol.com.br/site.php?mdl=aulete_digital&op=loadVerbete&pesquisa=1&palavra=espirito, 3 de março de 2010)

[ii] Há quem diga de pedagogia da fé, mas em outro sentido. É possível e desejável que o catequista saiba técnicas e teorias sobre a prática pedagógica, mas ele é ANTES DE TUDO E DE QUALQUER OUTRA COISA, um testemunha da vida do Cristo Ressuscitado que age e transforma a sua vida. O ministério da catequese só pode brotar da caridade transbordante da experiência pascal da vida em Igreja. Catequista que é bom pedagogo, mas não é testemunha da fé, soa falso. Se o catequista é testemunha, ele aprende a pedagogia e as técnicas de ensinar; mas se ele for bom pedagogo, mas não for testemunha, nada resolve.

No evangelho das tentações (Mt e Lc), o demônio discute com Jesus, baseado na Palavra de Deus. O demônio também tem fé, mas não consegue viver a Palavra, porque ele não é discípulo de Jesus (pelo contrário, tenta transformar Jesus em seu discípulo) e nem consegue sair das discussões e palavras vazias.

Espiritualidade e vocaçao do catequista - Pe Paulo


VOCAÇÃO E ESPIRITUALIDADE DO CATEQUISTA


Pe Dr PAULO F DALLA DEA


Existe uma espiritualidade do catequista? O que é espiritualidade? De onde ela brota? Ela tem a ver com movimentos tipo RCC, Catecumenato ou Folcolares? Muitas são as perguntas a ser feitas neste assunto, por isto, vamos começar pelo início. O que é espiritualidade?


“Spiritu[i]” do latim, vêm de sopro, o que dá vida. Espiritualidade quer dizer exatamente isto: uma relação com Deus que possa dar vida e valor à realidade e à vida das pessoas. É a partir deste prisma que a pessoa tira forças em momentos difíceis e em momentos de crise (de vida, de valores, de fé). Toda espiritualidade cristã parte do Batismo.


O Batismo nos dá a graça de sermos Filhos de Deus, salvos por Jesus Cristo e santificados pelo Espírito.


Filhos: ser (existência), dom (hereditariedade) e de posse (herança) – o Batismo nos confere uma identidade nova, marcada pela Graça de Deus em nós. Nos confere os dons de Deus e a posse em uma nova Terra Prometida (herdeiros de Abraao – Gn 12)


Salvos: somos irmãos de Cristo (Filhos no Filho), participamos da encarnação da humanidade em Deus pela Cruz e ressurreição. E Jesus Cristo nos deixou a sua Igreja como dom da ressurreição. A Igreja nasce da morte e ressurreição de Jesus, como dom de sua permanência entre nós. E isto nos funda a fraternidade pascal, fonte da nova vida dos ressuscitados. A Igreja não é um grupo de pessoas que se comportam assim ou assado, mas um grupo de discípulos que querem escutar e conviver com o mestre de Emaús (Lc 24).


Santificados e apóstolos: de Pentecostes nasce uma Igreja missionária, animada na força do Espírito. A partir desta força somos animados para transbordar alegria e paz, levando a outros o testemunho de comunhão com todos os discípulos e com o Cristo Ressuscitado. A Igreja é entranhadamente missionária, porque compartilha a alegria do discipulado.


É a partir desta graça que entendemos o catequista: ele é testemunha de sua própria fé, de sua conversão de vida e de seu discipulado com o Ressuscitado. Ele é missionário não porque alguém o disse, mas porque faz parte de sua própria fé e de sua vida com Deus partilhar o que se viveu, o que se sente e o que se experimenta.


Quais são as bases de uma espiritualidade da catequese?


1. A fé: ouvir a Palavra de Deus e ser abastecido e alimentado por ela faz com que a fé se exercite. Como o catequista é ministro da Palavra, ouvir e deixar se questionar pela Palavra alimenta a fé e a faz crescer e robustecer. Entendemos assim a necessidade da leitura orante da Bíblia e da Liturgia das Horas, assim como a leitura diária da Palavra, através do Lecionário Ferial e Dominical. É a Palavra que nos educa e fortalece a fé.


2. A esperança: a celebração do mistério pascal de Cristo nos remete a uma espiritualidade da sua vinda, na esperança da volta e no exercício de uma espiritualidade que exercite a paciência do esperar. O que é a Eucaristia senão o exercício contínuo da espera das realidades definitivas? Celebrar a eucaristia é já experimentar o que ainda não chegou, mas que já se anuncia a partir das realidades sacramentais, garantia do que virá.


3. A caridade: a fé e a esperança têm caráter provisório, enquanto o definitivo é a caridade, manifestação mesma da própria essência divina. Onde existe a caridade, Deus está aí. O exercício da catequese está diretamente ligado a esta realidade: é porque queremos bem e nos preocupamos com as pessoas que queremos que elas experimentem a mesma realidade interna de plenitude que é a morada do Deus Triúno em nós e a sua ação na vida. A ação catequética tem sua raiz aí: na felicidade em plenitude da vida cristã dos discípulos de Emaús, que reconhecem o Senhor ao partir o pão.


O ministério da catequese brota desta última virtude (= força) teologal: a missao e a catequese brotam do AMOR CARITATIVO que há entre a pessoa e Deus e a pessoa e os seus relacionamentos humanos. A missão da Igreja – embora muitos possam pensar assim – não brota do desejo proselitista de aumentar as fileiras do meu grupo, de engrossar e dar maior densidade política (em todos os sentidos) do grupo, mostrando-o para a sociedade como força. Mas a missão da Igreja nasce do transbordamento da experiência da pessoa com o Senhor Jesus Ressuscitado. Como em Pentecostes, a missão dos discípulos foi a coroação dos 50 dias de experiência com o Ressuscitado, de fraternidade pascal e da força do Espírito que impulsionou os Apóstolos. Mais do que um mandato de fora pra dentro, a missão brota da experiência com o Ressuscitado, como Emaús (Lc 24). Mais do que um ato de proselitismo, a missão brota da necessidade de partilhar esta experiência vital com as pessoas que se quer bem. É mesmo uma partilha com aqueles que ama, porque se quer distribuir esta experiência tão boa que é o relacionamento vital com o Deus Triúno.


Assim, não podemos falar nunca de um professor, de um mestre ou de um pedagogo[ii] na fé: podemos apenas – como catequista – partilhar a experiência de discipulado que o Senhor nos concedeu. O ministério da catequese brota da caridade da Igreja para com as pessoas. Ao falarmos da caridade, lembramos de esmola, de cuidados aos doentes, de socorro a situações de emergência (terremotos no Haiti e Chile), mas nos esquecemos de que a evangelização brota da caridade que transborda. Quem tem a experiência com Deus, quer derramá-lo, passá-lo, transbordá-lo. Por isto, a catequese é missionária: é da mesma fonte de Pentecostes. Isto é próprio de quem está cheio e não de quem está vazio.


O catequista pode rezar muito e não ter espiritualidade, porque ela é que dá força vital para impulsionar os atos práticos que decorrem da espiritualidade que se tem. Um catequista que tem dificuldade de ânimo para realizar qualquer coisa, se renovar e fazer bem feito o seu trabalho catequético de partilha da fé, pode rezar muito, mas não ter espiritualidade, porque a sua oração não é verdadeira ou é muito deficiente. O catequista que faz tudo de má vontade, que não participa de reuniões, não consegue trabalhar junto com ninguém, precisa se questionar sobre a sua espiritualidade.


Na Eucaristia, fazemos nosso discipulado e dela é que brota a missão. O trabalho de catequese não é de passar um conteúdo, mas realizar um trabalho de introdução da pessoa (criança, adolescente, jovem, adulto ou idoso) no discipulado com Cristo. Quem faz o discipulado é o mestre Jesus (Jo 1, 38-42): Jesus diz, Vem e vê! (Ou seja: “Faça a experiência!”) André apresenta o irmão a Jesus: esta é a missionariedade, que não brota do proselitismo, mas do amor pelo irmão. O importante da catequese é o discipulado que precisa ser realizado com a pessoa (pessoinha ou pessoona...) e com sua família.


Sem este discipulado, vamos dar hóstias para todos, sem a correspondente evangelização. Gastar milhares de hóstias por mês não é critério de evangelização, mas de uma massiva sacramentalização, que pode ser deficiente de Evangelho. Estamos precisando de catequistas que tenham amor exclusivo pelo Evangelho de Cristo e pela pessoa que se está trabalhando, evangelizando. E isto resolve um monte de problemas gerados pelos preconceitos: problemas de gênero, de raça, de condição social, de cultura, de status social, etc. Se a catequese parte da atitude de amor ao Cristo e da pessoa que está sendo evangelizada, supera-se qualquer preconceito, qualquer dificuldade. Aprende-se a trabalhar com a pessoa, a conviver com ela.


A catequese não é a fé, não é a esperança, mas é a caridade posta em prática. A fé deve-se ter e exercitar, a esperança tem que ser celebrada, mas é na caridade que brota uma boa catequese, um bom discipulado.


O teólogo luterano D. Bonhoeffer faz uma distinção entre graça barata e graça preciosa. A graça de Deus tem exigências (graça preciosa), Deus dá de graça, mas exige resposta de nossa parte, de forma que o discipulado é exigido e não é opcional. Nós, católicos romanos, temos a tendência de baratear a Graça, dando sem critério os sacramentos, sem exigências maiores de conversão e de vida. Aí as pessoas recebem e não dão valor nenhum. As igrejas evangélicas têm muitas exigências de vida para se manter fiel da Igreja. O discipulado é exigido e a partir daí o fiel diz: encontrei Jesus. Peraí, consoco as pessoas não podem encontrar Jesus? Qual a diferença entre um católico que recebeu o sacramento de qualquer jeito (ás vezes, sendo empurrado para isto: Graça barata) e um evangélico que (depois de receber o sacramento da Igreja Católica) encontrou Jesus? É o discipulado que faz toda a diferença na vida desta pessoa, que – se for sincera – muda de vida e de atitudes para com Deus e para com os irmãos. É este discipulado que está fazendo a diferença e que nós precisamos iniciar na catequese. Sem ele, haverá sacramentalização, mas não evangelização. Claro que uma coisa não anula a outra, mas a evangelização é condição necessária pra se receber o sacramento e não o contrário, como está havendo em muitos lugares.










[i] (es.pí.ri.to) s2g. 1. Componente não corporal de ser humano vivo, que segundo crenças religiosas ou de outra natureza sobrevive à morte do corpo; ALMA 2. O conjunto de atributos, funcionalidades e características não materiais do ser humano; ALMA 3. Rel. Suposta entidade imaterial, superior às coisas terrenas 4. Rel. Para os espíritas, a alma dos mortos desencarnados. 5. Rel. Qualquer entidade sobrenatural, seja do bem, seja do mal (espírito demoníaco, espírito iluminado) 6. Princípio vital, que existe à parte da matéria e que insufla vida aos seres e coisas materiais; SOPRO. In: Dicionário Caudas Aulette: (http://aulete.uol.com.br/site.php?mdl=aulete_digital&op=loadVerbete&pesquisa=1&palavra=espirito, 3 de março de 2010)




[ii] Há quem diga de pedagogia da fé, mas em outro sentido. É possível e desejável que o catequista saiba técnicas e teorias sobre a prática pedagógica, mas ele é ANTES DE TUDO E DE QUALQUER OUTRA COISA, um testemunha da vida do Cristo Ressuscitado que age e transforma a sua vida. O ministério da catequese só pode brotar da caridade transbordante da experiência pascal da vida em Igreja. Catequista que é bom pedagogo, mas não é testemunha da fé, soa falso. Se o catequista é testemunha, ele aprende a pedagogia e as técnicas de ensinar; mas se ele for bom pedagogo, mas não for testemunha, nada resolve.


No evangelho das tentações (Mt e Lc), o demônio discute com Jesus, baseado na Palavra de Deus. O demônio também tem fé, mas não consegue viver a Palavra, porque ele não é discípulo de Jesus (pelo contrário, tenta transformar Jesus em seu discípulo) e nem consegue sair das discussões e palavras vazias.